Quarta-feira, Abril 17, 2024
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Património cultural subaproveitado e desafios fiscais destacados no Fórum “Vê Portugal”

No Fórum “Vê Portugal”, especialistas reunidos no painel “Caminhos para o Futuro do Turismo Interno” destacaram o potencial cultural ainda subaproveitado no país e ressaltaram a urgência de reformas fiscais.

O painel contou com a participação de Ana Jacinto, Secretária-Geral da AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal), Adolfo Mesquita Nunes, advogado e ex-Secretário de Estado do Turismo, e Pedro Costa Ferreira, presidente da APAVT (Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo).

Durante o evento, Ana Jacinto destacou a importância da parceria entre a AHRESP e a Turismo Centro de Portugal, afirmando que a representatividade da AHRESP na região se deve em grande parte a essa colaboração. A responsável compartilhou um vídeo com a opinião de empresários de diferentes regiões, ressaltando a importância da cultura, gastronomia e das pessoas como vetores fundamentais para o sucesso do turismo interno.

Ao ser questionada sobre a disponibilidade da cultura portuguesa para os turistas nacionais, Ana Jacinto enfatizou a necessidade de “valorizar o território para aprimorar a experiência turística”. A responsável mencionou que Portugal possui 38.015 monumentos, dos quais apenas 4.757 estão classificados, e somente 250 estão abertos ao público. Ana Jacinto ressaltou que é preciso “percorrer um longo caminho nesse aspecto”, destacando a riqueza e o património inigualável distribuído por todo o país, que muitas vezes não são visitados nem conhecidos pelos próprios portugueses.

Sobre a relação entre turismo e cultura, Pedro Costa Ferreira argumentou que o problema não está na falta de conexão entre eles, mas sim na “gestão do património”. O presidente da APAVT enfatizou que o património não pertence apenas ao turismo, mas sim a todos, e serve como um meio de nos relacionarmos com “a nossa própria identidade”. Pedro Costa Ferreira destacou que o turismo interno fortalece a formação de uma identidade e coesão nacional, contribuindo para o turismo como um todo.

Adolfo Mesquita Nunes ressaltou a relevância do turismo para a economia nacional, mencionando que é o setor que “gera mais empregos”, além de ajudar a reconciliar territórios, promover a criatividade e o empreendedorismo. “Não se pode continuar a apontar o dedo ao turismo e dizer-se politicamente que só países de terceiro mundo é que têm um setor de turismo tão desenvolvido ou que temos uma monocultura de turismo. Nós não temos uma monocultura de turismo, as outras atividades económicas é que não estão tão fortes como o turismo”, frisou, destacando a importância de reconhecê-lo como um motor da economia e não apontá-lo como um problema.

Durante o painel, a moderadora questionou se as empresas do setor estão a sentir os impactos positivos do turismo nos primeiros três meses deste ano, que foram considerados os melhores de sempre. Ana Jacinto, da AHRESP, respondeu que embora haja “uma procura crescente e resultados recordes”, é importante ter em mente que a maioria das empresas são microempresas, que ainda estão fragilizadas pela pandemia. A secretária-geral destacou que muitas ainda não recuperaram completamente e estão a enfrentar dívidas acumuladas durante o período da covid-19. Ana Jacinto acrescentou que a inflação e os custos salariais também têm sido um desafio para o setor da restauração.

A moderadora também questionou Pedro Costa Ferreira sobre as suas expectativas para o verão de 2023, uma vez que o presidente da APAVT havia sugerido anteriormente que poderia ser pior do que o verão de 2022. Pedro Costa Ferreira respondeu otimisticamente, afirmando que o setor das agências de viagens e turismo em geral teve um “desempenho fantástico em 2022”, alcançando números semelhantes aos de 2019. De uma forma geral, o dirigente acredita que “o setor está melhor em 2023 do que em 2022”, apesar das preocupações com a inflação e a guerra na Ucrânia.

Em relação à dificuldade de contratação de recursos humanos, Adolfo Mesquita Nunes defendeu a necessidade de reabilitar e requalificar o setor do turismo através de políticas adequadas. O advogado destacou que o sistema fiscal desencoraja os aumentos salariais, uma vez que o Estado fica com “metade do ganho” quando um empresário decide premiar um trabalhador com um aumento. Mesquita Nunes argumentou que é necessário “rever a política fiscal e de contribuições” para permitir que os empregadores aumentem os salários dos colaboradores.

Ana Jacinto, ressaltou a carga fiscal elevada em Portugal, citando dados da OCDE que indicam o país como um dos que possuem maior carga fiscal sobre o rendimento do trabalho. A responsável pediu ações concretas em relação aos impostos sobre o rendimento, destacando que o atual sistema muitas vezes faz com que os colaboradores recebam menos quando são promovidos devido ao salto para um escalão superior. Além disso, Ana Jacinto enfatizou a importância de resolver questões como a organização de horários de trabalho e a dureza das atividades no setor. Além disso, a dirigente mencionou a necessidade de capacitação dos empresários e melhoria na formação. “Isto tem encargos numa primeira fase, mas a médio/longo prazo traz benefícios”, frisou.

Pedro Costa Ferreira, acrescentou que é importante desmistificar a ideia de que as pessoas não querem trabalhar no setor do turismo. O dirigente observou que houve uma rápida recuperação na procura turística, mas o ajuste do mercado de trabalho tem sido mais lento, ressaltando que a questão salarial deve ser analisada de forma mais abrangente, distribuindo a responsabilidade entre os empregadores e o Estado, que “retém uma parte considerável dos rendimentos”. No entanto, destacou a importância de políticas de imigração para suprir a necessidade de mão de obra em determinadas regiões, como o Algarve.

“É preciso mão-de-obra no Algarve mas a mobilidade é quase inexistente, não há transportes. Quem traz mão-de-obra tem de alojar pessoas em unidades. Como não pode alojar nos locais turísticos, tem de alojá-las a uma certa distância e como não há mobilidade tem de os transportar até ao local de trabalho. Tudo isto tem custos acrescidos”, afirmou.

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