O turismo internacional nos Estados Unidos entrou em 2026 sob forte pressão – precisamente no ano em que o país espera beneficiar do Campeonato Mundial de Futebol da FIFA, com 75% dos jogos a realizarem-se em território norte-americano.
Segundo o jornal britânico The Independent, os sinais negativos já eram visíveis em 2025: enquanto o turismo mundial cresceu cerca de 4%, as chegadas internacionais aos EUA recuaram 5,4%. Foi a maior quebra fora do período da pandemia desde 2017-2018, quando o setor já tinha enfrentado receios de uma crise turística.
O impacto foi particularmente evidente no Canadá, principal mercado emissor para os Estados Unidos, com as viagens destes turistas a cair quase 30% num só ano. No entanto, a retração não se limita ao país vizinho – também visitantes da Austrália, Índia e Europa Ocidental reduziram deslocações.
Neste contexto, especialistas em turismo do The Independent consideram que a tendência poderá prolongar-se ao longo de 2026 e associam-na diretamente às políticas da administração Trump. Medidas na área da imigração, anúncios sucessivos de tarifas – elevadas para níveis não vistos desde 1935 – e uma política externa mais agressiva estão a contribuir para deteriorar a imagem do destino.
Em particular, a perceção de insegurança tornou-se um fator relevante. Muitos estrangeiros afirmam sentir-se indesejados ao viajar para os EUA, enquanto responsáveis políticos no Canadá e na Europa chegaram a incentivar os cidadãos a gastar dentro dos próprios países.
Vários países chegaram a emitir avisos de viagem relacionados com procedimentos de entrada mais rigorosos e abordagens consideradas agressivas por parte das autoridades de imigração, sendo a Alemanha um dos casos mais recentes.
Para Julia Simpson, CEO do World Travel & Tourism Council (WTTC), a situação representa um motivo de preocupação sério para o turismo e um “alerta” para os EUA. “A maior economia de viagens e turismo do mundo está a ir na direção errada. Enquanto outras nações estendem a passadeira vermelha, o Governo norte-americano está a colocar o sinal de ‘fechado’”, afirmou.
As estimativas indicam que o país poderá ter perdido cerca de 30 mil milhões de dólares em receitas de turismo internacional em 2025, uma vez que os viajantes optaram por viajar para outros destinos.
Os resultados negativos do turismo norte-americano inserem-se numa tendência estrutural de perda de quota. A participação dos EUA no turismo internacional mundial caiu de 8,4% em 1996 para 4,9% em 2024, estimando-se uma descida para 4,8% em 2025. Em sentido inverso, outros destinos turísticos importantes, como França, Grécia, México e Itália, deverão continuar a registar crescimento nas chegadas internacionais.
O declínio atinge igualmente o turismo de negócios, com menos deslocações profissionais provenientes de todas as grandes regiões do mundo.
Neste contexto, o Mundial de 2026, que será co-organizado pelos Estados Unidos, Canadá e México, surge como uma oportunidade decisiva para inverter a tendência, mas sem garantias. Embora grandes eventos desportivos normalmente impulsionem o turismo, o setor teme que a política externa de Trump limite esse efeito.
Entre os fatores preocupantes estão o aumento do custo da autorização eletrónica de viagem (ESTA) e novas regras que poderão obrigar os visitantes a fornecer o histórico das suas redes sociais dos últimos cinco anos para entrar no país.



