Preços mais altos ou reservas de última hora? Setor antecipa como vão ser as viagens em 2023

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Já não restam grandes dúvidas quanto a um aumento generalizado dos preços dos pacotes de viagens em 2023. Mas como reagirão os portugueses a uma possível subida de preços nas viagens em 2023? Qual será o seu comportamento de consumo? Vão preferir viajar para destinos mais próximos ou reduzir o número de viagens? Como devem reagir as agências de viagens a este ambiente?

O presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT) tem uma certeza: “2023 vai ser pior do que 2022, a pergunta é: quão pior vai ser?”. Pedro Costa Ferreira falava na mesa redonda da primeira convenção organizada pelo grupo de gestão DIT Portugal, no passado dia 15 de outubro, e na qual também participaram António Loureiro, ex-country manager da Travelport, Duarte Correia, diretor geral do grupo World2Meet em Portugal, e André Gabriel, da agência Tejus.

Mesa redonda na convenção da DIT Portugal

“Temos uma incerteza absoluta quanto à evolução da guerra, basta que se mantenha assim para que se intensifiquem os efeitos. Temos garantidos aumentos de custos salariais, por causa da falta de mão-de-obra, o preço dos nossos colaboradores vai aumentar, quer porque são escassos no mercados e começa a haver contratação de agentes a outras agências de viagens. Depois, temos os custos de contexto, energia e por aí fora, que vão aumentar”, afirma o presidente da APAVT. Perante este cenário, Pedro Costa Ferreira considera que a procura vai diminuir. “Não tenho nenhuma dúvida, o rendimento disponível dos portugueses vai diminuir, o nosso setor é o mais sensível ao consumo, quando o consumo diminui em Portugal, o setor das agências de viagens é o primeiro a cair. Mesmo no ambiente turístico, cai antes dos hotéis e de tudo o resto, sendo depois o primeiro a recuperar, porque somos provavelmente os mais próximos dos clientes”.

“Prevejo retração da procura, aumento dos custos, espero que não seja demasiado que nos impeça de ganhar dinheiro. Mas tenho a certeza que de um modo geral o mercado vai ganhar menos dinheiro do que em 2022, como nos mantemos com problemas de tesouraria, não é a melhor notícia do mundo, é mais uma”, constata.

Pedro Costa Ferreira

Duarte Correia, que trouxe ao debate a visão do operador turístico, enumera o preço como um dos fatores críticos para a operação em 2023. “Vai ser extremamente difícil contornar estas duas variáveis: o aumento do dólar face ao euro e o preço do fuel. São variáveis que não vamos conseguir afetar ao preço e dar continuidade a um preço igual ao de 2022. O que significa que, no longo curso, e nos produtos que vendemos, nomeadamente nas Caraíbas, vai haver eventualmente variação de preço obrigatoriamente. Julgo que é incontornável não subir o preço”.

No entanto, o responsável dos operadores Newblue e Icárion acredita que não haverá aumentos expressivos de preço. “Não estamos a falar de grandes aumentos, caso contrário, depois os pacotes não têm saída. Mas há que ter isto em conta: muito dificilmente se fará férias no próximo ano ao mesmo preço que se fez este ano”. Já quanto ao que os agentes de viagens podem esperar destes dois operadores em 2022, Duarte Correia garante que vão aparecer no mercado “com produto alternativo, diferenciado e destinos novos”. “É cedo para falar do produto que vamos lançar, mas definitivamente vamos novamente para as Caraíbas com as mesmas frequências, eventualmente com mais frequências para as Caraíbas e com novos destinos”.

Duarte Correia

Como vão reagir os consumidores?

Na visão de André Gabriel, responsável da agência Tejus, mesmo que os preços aumentem, os hábitos de viagem dos portugueses vão manter-se, o que pode levar a uma adaptação do consumo à disponibilidade financeira. “Os preços vão subir, mas os hábitos de consumo também se conseguem manter. As pessoas têm muitas dificuldades em baixar aquilo que são os seus hábitos. O que pode acontecer é que, determinados clientes que compram um nível de hotel muito superior, podem, no próximo ano, escolher uma categoria de hotel ligeiramente inferior. O cliente que está habituado às Caraíbas ao preço de lançamento, provavelmente vai encontrar uma alternativa para manter as suas férias fora do país, mas em destinos mais próximos, de médio curso. Enquanto que o cliente de destinos de proximidade vai optar por destinos ainda mais próximos”, exemplifica. “O cliente habituado ao low price, além de gostar de fazer as suas férias e de manter os seus hábitos de consumo, poderá não ir para o estrangeiro, mas fará as suas férias cá na mesma. Não acredito que as pessoas vão deixar de viajar, quero acreditar que, pelo contrário, o consumidor vai aprender a reinventar-se, também acredito que aquele cliente que faria duas ou três grandes viagens, passa a fazer duas ou uma. Cabe-nos também conseguirmos encontrar produtos alternativos, complementares, fazer upselling, crosselling, para que possamos através de outras vias tirar proveito”, defende.

André Gabriel

Na opinião de Pedro Costa Ferreira, há sempre uma oportunidade para destinos de proximidade quando há retração. “Da mesma maneira que, quando há aumento do poder de compra, se assiste ao inverso. Na pandemia havia poupança forçada das famílias, e nunca se vendeu tanto Maldivas”, recorda.

“De um modo geral, sim, vai haver uma mudança para destinos de maior proximidade”, reconhece Pedro Costa Ferreira, no entanto, alerta para a subida do combustível. “Em destinos de proximidade, ou para short breaks, pode-se colocar o destino fora do value for money do consumidor. Por exemplo, tenho oportunidade de ir à Madeira em momentos de retração, se o valor do fuel colocar o preço da Madeira anormalmente alto relativamente ao histórico, tenho um problema”.

Quanto ao comportamento do consumidor, não tenho muitas dúvidas, os anos de retração são anos de ofertas de última hora, o consumidor percebe isso muito bem. Nestes momentos de retração, provavelmente, o cliente vai hesitar, os charters vão estar menos preenchidos e, por causa disso, vão efetuar ofertas de última hora. Acresce que, vários destinos, como as Caraíbas, Djerba, Cabo Verde, enfrentam, atualmente, momentos de concorrência agressiva entre operadores que tentam ocupar espaço comercial. Nestes momentos, quem compete por esse market share tem capacidade financeira para competir por ele, muitas vezes baixa o preço com objetivos de market share. Não estou muito otimista, julgo que vamos ter o comportamento clássico do consumidor de decisão mais perto da casa de partida”, constata Pedro Costa Ferreira.

Para António Loureiro, está “na altura, de uma vez por todas, das agências segmentarem” a sua oferta. “Agora é a oportunidade que têm de desenvolverem os seus CRM’s e terem mesmo de identificar o perfil dos clientes. Há outra coisa que vai ter um impacto tremendo no próximo ano, que são os sistemas operativos, toda a tecnologia vai evoluir a partir do próximo ano talvez mais rápido do que estávamos à espera e, se calhar, as máquinas que temos hoje nas nossas agências não vão chegar para conseguir mover-se à velocidade que vai ser requerida. Isto significa que vamos ter que ter uma base de dados muito correta dos clientes, porque os fatores de rapidez e objetividade, fazendo a segmentação do mercado, são resposta para aquilo que aí vem”, considera.

António Loureiro

“Quando os grupos de gestão começaram, ninguém tinha consolidação, hoje praticamente todos têm consolidação e querem fazer evoluir as suas plataformas, a DIT é uma delas e é inevitável, porque cada vez mais será preciso segmentar, temos de conhecer exatamente o que queremos fazer. Nas agências não podemos ir a todas”, defende.

Futuro da relação agências vs fornecedores

Rapidez na resposta parece ser o que as agências mais querem dos seus fornecedores, incluindo dos operadores turísticos. Esta é a opinião de André Gabriel, quando questionado sobre o que espera dos fornecedores. “Os clientes hoje sabem o que querem, quando querem e querem agora. Utilizo muito esta expressão, porque o que preciso de um operador é exatamente o mesmo: sei o que quero oferecer ao meu cliente, e quero agora, creio que é a realidade do nosso dia-a-dia nas agências.  Queremos que as ofertas sejam simples, objetivas, ou seja, que aquilo que o operador nos está a dar seja uma solução efetivamente e não se transforme numa complicação. Às vezes, as ofertas parecem soluções e, na prática, são experiências que nos deixam com uma batata quente nas mãos”, defende. “O que espero dos operadores e dos restantes fornecedores, mais do que novidades – que são necessárias, obviamente, porque o cliente tem tendência a não querer repetir logo a mesma viagem – é que nos deem informação, proximidade e esclarecimento e resoluções de problemas na hora”. André Gabriel afirma que esta pressão é vivida no dia à dia-a-dia e acredita que “é por isso que não fazemos mais coisas à medida”. “Às vezes, à conversa com alguns operadores e fornecedores, é-me dito que poderia fazer mais viagens à medida, mas não é com isso que conto, conto com um fornecedor que me dê esse serviço, em primeiro lugar, porque têm todo o know-how, depois são eles que conhecem os players do mercado e estão nos sítios certos, só eles é que podem assumir essa responsabilidade. Portanto, os fornecedores são extremamente importantes desde que nos saibam ouvir, saibam o que nós queremos, quando queremos e o que queremos é agora”.

Ainda sobre o que as agências querem dos fornecedores, Pedro Costa Ferreira acrescenta a transparência. “Neste momento, com a alteração sucessiva de preços, precisamos de transparência, no sentido de sabermos como são formados, porque é que sobem em determinada altura, e porque é que sobem de diferentes maneiras de operador para operador, às vezes no mesmo destino. Julgo que é legítimo, mas com transparência a relação corre melhor, e precisamos de uma boa reação às adversidades que vão acontecer muito. Quando estamos com o charter parado no aeroporto, o operador está a falar por nós. No final da história, os clientes vão entrar na nossa agência a dizer que o operador que escolhemos é pouco correto, o ónus é sempre nosso, a capacidade de reação do operador tem que ser muito importante e, finalmente, quando tudo corre mal, há uma reação importante às reclamações. O que me parece é que, sempre que se baixa o preço, não é por causa do interesse das agências de viagens, é pela competição natural entre operadores, e nós nunca desejamos isso, desejamos só preços justos”.

Por sua vez, questionado sobre o que podem esperar as agências dos operadores, Duarte Correia afirma que o grupo W2M não pretende entrar no negócio das agências de viagens em Portugal, mas com uma ressalva. “Temos grupos como a DIT e outros que escoam o nosso produto, e, como tal, não é necessário ter distribuição própria, obviamente que a partir do momento que sentimos alguma ameaça de que o produto não sai pelos canais certos e não é distribuído pelo mercado, eventualmente poderemos pensar em distribuição própria, isso é uma questão bem assente do nosso lado”. “Este ano, tivemos um excelente ano e uma excelente colaboração com as agências de viagens”, conclui. Analisando a entrada no mercado dos novos operadores do grupo W2M, Duarte Correia disse que  houve uma aposta “no preço e no portfólio de produto, além da atitude que tivemos para com o mercado”. “Demos uma componente de variáveis adjacentes ao pacote tradicional de avião, hotel, transfer”. A declaração de Duarte Correia teve ainda uma resposta de Pedro Costa Ferreira. “O Duarte falou que diferenciava por preço e por portfólio de produto. Precisamos de preços competitivos, não precisamos de preços baixos, e precisamos de produto que preencha as expetativas do cliente”

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