O interesse de hoteleiros portugueses no estrangeiro em regressar a Portugal está a aumentar, impulsionado por um setor hoje mais “dinâmico” e “competitivo”. Ainda assim, “o desejo é frequentemente travado pela questão salarial”, afirma António Dionísio, um jovem português que trabalha na sede do Mandarin Oriental Hotel Group, em Hong Kong.
Em 2022, então com 23 anos, António Dionísio dava os primeiros passos numa carreira internacional ao integrar um Corporate Management Program em F&B no Mandarin Oriental, Bangkok. Licenciado em Direção e Gestão Hoteleira pela Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril e com mestrado em Gestão Hoteleira Internacional pela Les Roches, em Marbella, procurava diferenciar-se para ter “mais oportunidades de trabalho quando a atividade turística retomasse em pleno”.
Quatro anos depois, o percurso levou-o da operação hoteleira na Tailândia à equipa de Transformação do grupo, em Hong Kong. A mudança representou uma viragem estratégica. “A transição de operações para a gestão de projetos mudou completamente a minha rotina”, explica, referindo que hoje contribui para o crescimento e expansão da marca e para iniciativas como o desenvolvimento da aplicação do grupo, ajudando a “moldar o futuro da hotelaria luxo”.
“A saudade e desejo de regressar existe por muitos certamente, mas é frequentemente travado pela questão salarial”
Regresso a Portugal?
No contacto com colegas portugueses e outros profissionais no estrangeiro, António identifica sinais concretos de maior abertura ao regresso. Muitos procuram “estabilidade familiar” e “qualidade de vida”, bem como a possibilidade de integrar um setor nacional que considera hoje mais “dinâmico”, que “abriu-se ao segmento de luxo” e está “claramente mais competitivo”.
Há vontade de “contribuir para o crescimento da hotelaria portuguesa, trazendo experiência internacional”, mas esse desejo nem sempre se materializa. “A saudade e desejo de regressar existe por muitos certamente, mas é frequentemente travado pela questão salarial”, afirma.
Segundo explica, muitos profissionais não querem abdicar das condições oferecidas no estrangeiro, onde existe uma “associação clara entre valorizar talento e oferecer condições competitivas”. Em Portugal, acrescenta, a “pressão fiscal”, o “custo de vida” e as “margens reduzidas” tornam mais difícil acompanhar esses níveis.
Ainda assim, acredita que o país pode competir noutras dimensões cada vez mais valorizadas. “Progressão de carreira, estabilidade, boas culturas de trabalho e reconhecimento de mérito profissional” são fatores diferenciadores, aos quais se juntam “qualidade de vida” e “equilíbrio entre vida pessoal e profissional”. Se trabalhados de forma consistente, defende, “podem tornar-se atrativos”.
“[Em Portugal] Há um ritmo constante de novas aberturas, reflexo da confiança no mercado. Hoje há mais oferta, mais conceitos diferentes e projetos cada vez mais interessantes”.
O que mudou no setor português


António Dionísio considera que o setor hoteleiro nacional evoluiu de forma significativa. “Há mais oferta, mais conceitos diferentes e projetos cada vez mais interessantes”, refere, num contexto de novas aberturas que refletem confiança no mercado.
Este dinamismo cria espaço para talento internacionalizado, sobretudo profissionais habituados a operar em mercados “extremamente competitivos” e em segmentos de luxo “com standards muito exigentes”, ainda em desenvolvimento em Portugal.
O jovem destaca também o “excelente trabalho de formação” realizado pelo Turismo de Portugal, que ajuda a explicar a presença de portugueses nos “melhores hotéis, restaurantes, cruzeiros, pastelarias e eventos” pelo mundo. Esses profissionais, acrescenta, distinguem-se por estarem inseridos em “culturas altamente dinâmicas”, o que se reflete na capacidade de “inovar”, “criar novos conceitos” e “liderar de modo resiliente e eficaz”.
Para captar este talento, considera essencial manter um “diálogo ativo com a diáspora” e divulgar oportunidades em “projetos sólidos, com visão estratégica e capacidade de execução”. Destaca ainda a importância de continuar com programas de incentivos ao regresso.
Entre medidas concretas, aponta a implementação de práticas comuns no estrangeiro, como o service charge – uma taxa de serviço aplicada ao cliente e posteriormente distribuída pelas equipas, complementando a remuneração fixa -, que “começa agora a ganhar tração em Portugal”. Normalizar esta prática pode tornar o setor “muito mais atrativo”, promovendo maior “justiça” na remuneração.
“Acima de tudo, os operadores devem demonstrar compromisso: reconhecer talento e criar condições para que ele possa florescer. Quando isso acontece, a intenção deixa de ser apenas interesse e transforma-se em contratação”, sustenta.
Quanto à crescente dependência da imigração no turismo, considera-a “uma componente essencial para a sustentabilidade do setor”. Segundo António, a diversidade cultural pode trazer desafios, nomeadamente na gestão de equipas, mas tem potencial para “enriquecer significativamente qualquer operação”.
“os operadores devem demonstrar compromisso: reconhecer talento e criar condições para que ele possa florescer. Quando isso acontece, a intenção deixa de ser apenas interesse e transforma-se em contratação”
Defende, no entanto, que Portugal tem interesse em “reequilibrar esta equação”, aproveitando os “muitos profissionais altamente qualificados no estrangeiro” que podem contribuir “de forma imediata e estratégica” para fortalecer o setor nacional. “Não se trata de substituir um modelo por outro, mas sim de complementar”, afirma.
Pessoalmente, vê o regresso “com naturalidade” e admite que é uma possibilidade que considera. Portugal é o país onde quer constituir família e reconhece a evolução do setor hoteleiro nacional.
Para que isso aconteça, procura um projeto onde possa ter “impacto” e continuar a crescer. “Procuro propósito, continuar a aprender e um ambiente que valorize mérito profissional. Se essas condições se alinharem, o regresso será não só possível, mas desejado”, conclui.



