Terça-feira, Dezembro 9, 2025
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Um país a discutir turismo às cegas: a sustentabilidade paga a fatura

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O caminho para a sustentabilidade não começa com mais relatórios, mais planos estratégicos ou mais plataformas digitais. Começa com transparência. Começa com comunicação responsável. Começa, enfim, por falar com as pessoas antes de falar sobre elas.

Li, com muita atenção, o Barómetro do Turismo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, recentemente publicado. De resto, leio sempre com atenção tudo o que vem da FFMS: habituou-nos, justamente, a uma qualidade elevadíssima, a rigor metodológico e a uma capacidade rara de iluminar debates que, em Portugal, passam demasiadas vezes na sombra. Este Barómetro não foge à regra – e talvez por isso seja tão desconfortável.

O que o estudo revela não é apenas um retrato das perceções dos portugueses sobre o turismo. É, sobretudo, um retrato do que falha estruturalmente na forma como o país fala – ou, melhor, não fala – de turismo e de sustentabilidade. E é aqui que está o ponto central: o problema não está nas pessoas; está no Estado. E quando digo «Estado», falo de toda a arquitetura pública – Governo, autarquias, entidades reguladoras e organismos tutelares.

Os portugueses não estão «mal informados» porque não querem saber. Estão mal informados porque o poder público, em regra, não explica (ou não sabe explicar), não esclarece (ou não sabe esclarecer) e, pior ainda, não ouve (porque não sabe, ou não quer, ouvir). E não ouve precisamente quem devia estar no centro do debate: os residentes. É surpreendente, quase chocante, quantas reuniões, fóruns, grupos de trabalho e “encontros de sustentabilidade” decorrem neste país sem a presença de quem vive nos territórios que se pretende “tornar mais sustentáveis”.

Recordo uma reunião em particular, em que um profissional do setor – bem-intencionado, acredito – disse com a maior serenidade: “Afinal, somos todos residentes”. Nada mais eficaz para provar o contrário. Ser residente não é um cargo, é uma condição, e quem trabalha em turismo não pode, por simples osmose, vestir a pele de quem vive num bairro que mudou radicalmente por causa da pressão turística. A experiência quotidiana não se simula.

É precisamente aqui que o Barómetro é tão revelador. Os portugueses têm opiniões fortes, muitas delas legítimas, mas estão longe de ter a informação necessária para compreender o que está realmente em jogo. E a responsabilidade disto não pode, nem por um segundo, recair sobre o cidadão comum. Como pode alguém avaliar o impacto do turismo na habitação se nunca lhe foram apresentados dados claros e comparáveis? Como pode alguém perceber o real efeito do turismo nos rendimentos das famílias se nunca lhe explicaram (ainda que em linguagem muito acessível) margens, cadeias de valor, fiscalidade, distribuição de riqueza? Como pode alguém preocupar-se com as emissões dos transportes se ninguém lhe mostra, de forma simples e regular, que impacto tem cada tipo de deslocação?

Há ainda um ponto que raramente é discutido: a assimetria geracional no acesso ao conhecimento. Os miúdos das escolas, que já crescem com educação ambiental desde cedo, não votam, não compram viagens e não decidem políticas públicas — mas já influenciam os pais, e ainda bem. Nem sempre aplicam aquilo que pregam, claro; faz parte da idade e da biologia social das adolescências.

Mas basta olhar para as idades de grande parte dos «climáximos» para perceber que a mudança cultural arranca quase sempre nos mais novos. E enquanto continuarmos a falhar na informação de base, estaremos a perder a oportunidade de fazer precisamente aquilo que importa: educar para controlar não o número de turistas, mas o impacto – positivo e negativo – que eles têm nos destinos. Esse seria, aliás, um investimento público bem feito.

E depois há um fenómeno curioso, quase sociológico, que o Barómetro não mede, mas que qualquer pessoa reconhece: há falta de informação, sim, mas também há alguma falta de coerência. Conheço quem se queixe do barulho dos trolleys na rua, mas faz exatamente o mesmo quando viaja. São os mesmos que criticam o «excesso» de alojamento local na sua cidade, mas que são os primeiros a procurá-lo quando escolhem o destino de férias… Com o mal dos outros… Não é hipocrisia – é humano. Mas esta dissonância só se resolve com mais informação e com uma comunicação pública que trate os cidadãos como tal, e não como meros espetadores da política turística.

Fala-se muito de turismo, mas não se diz o essencial. E fala-se sobretudo para celebrar: milhões de visitantes, milhões de euros, milhões de dormidas, milhares de empregos. Esse lado existe, evidentemente, mas é apenas metade da história. A outra metade fica sempre por contar. E, sem ela, o que se constrói não é confiança: é ruído – e perigoso…

A questão da habitação é talvez o exemplo mais flagrante. A opinião pública, a tal desinformada, e por isso alvo fácil de manipulação política e também corporativa, foca-se quase exclusivamente no alojamento local, como se fosse o vilão solitário desta história. E, no entanto, todos sabemos – e o Barómetro confirma – que a realidade é bem mais complexa. Se há apartamentos desviados para turismo, também há hotéis a ocupar prédios inteiros onde viveram, durante décadas, pessoas reais, famílias que foram deslocadas para longe das suas comunidades, das suas raízes. Mas esse lado da narrativa raramente aparece na comunicação. E, quando não aparece, o vazio é preenchido por irritação, suspeita, ou simplesmente por «achismos».

E depois há o lado da sustentabilidade, essa palavra tão repetida e tão pouco explicada. O Barómetro mostra que os portugueses valorizam a sustentabilidade – ambiental, social e cultural – mas revela também o grau de contradição em que vivemos. Queremos menos pressão? Queremos mais controlo? Queremos limitar visitantes? Queremos reduzir impactos? Sim. Mas queremos, em simultâneo, continuar a viajar como sempre, e queremos que continuem a chegar turistas de avião, apesar das emissões. E, sem informação, tudo isto parece incoerente. Com informação, percebe-se que é normal. As pessoas só podem ser coerentes com aquilo que sabem.

É aqui que o poder público falha mais gravemente: não há comunicação pública consistente, contínua e responsável sobre turismo e sustentabilidade. O tema aparece na imprensa sempre com o mesmo guião — recordes, receitas, rankings – sem espaço para explicar o que o turismo implica, o que custa, o que devolve, o que pressiona e o que transforma. Não há campanhas que expliquem o consumo de água e energia, as emissões, a mobilidade, a cadeia de valor, a distribuição dos benefícios, a relação real com a habitação. Não há, acima de tudo, comunicação que dê às pessoas aquilo que elas têm direito de ter: contexto.

Informar não é um luxo; é uma obrigação. E ouvir não é um gesto cosmético; é condição de legitimidade.

Se o Estado quer políticas públicas sólidas, sustentáveis e aceites, tem de começar por admitir uma evidência: Portugal está a discutir turismo sem informação suficiente. E essa ausência de informação distorce expectativas, alimenta medos e legitima decisões precipitadas — para qualquer lado do espectro.

O caminho para a sustentabilidade não começa com mais relatórios, mais planos estratégicos ou mais plataformas digitais. Começa com transparência. Começa com comunicação responsável. Começa com escuta. Começa, enfim, por falar com as pessoas antes de falar sobre elas.

E talvez esse seja, afinal, o grande ensinamento deste Barómetro: não é possível construir um turismo sustentável num país que continua a informar pouco e tarde. A sustentabilidade paga a fatura porque, precisamente, passamos mais tempo a discutir trolleys do que a discutir emissões…

Por Paulo Brehm, Consultor de Sustentabilidade

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