“Vai ser difícil vermos crescimento”. Airmet admite 2026 abaixo das expectativas e encara 2027 com otimismo cauteloso

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A Airmet está a registar um crescimento “muito ligeiro” no volume de vendas em 2026, ano que ficou “aquém” das expectativas iniciais devido à instabilidade geopolítica e ao aumento dos preços dos combustíveis. Susana Fonseca, diretora-geral do grupo de gestão, que integra 543 agências de viagens, reconhece que a rentabilidade foi “seguramente afetada” e antecipa um 2027 desafiante, admitindo que “vai ser difícil vermos um crescimento” e que igualar os resultados deste ano já será positivo. Ainda assim, considera que existe “uma margem enorme de crescimento” no setor e destaca a aposta em novas soluções tecnológicas e de marketing.

Em conferência de imprensa realizada este sábado, 31 de outubro, à margem da 22.ª Convenção da Airmet, na Póvoa de Varzim, Susana Fonseca fez um balanço do ano, marcado por um desempenho que ficou “aquém daquilo que eram as nossas perspetivas”.

“2025 foi um excelente ano, foi o melhor ano de sempre da Airmet. A verdade é que perspectivávamos que o ano de 2026 fosse ainda melhor”, começou por dizer. “Quis a conjuntura geopolítica trazer-nos alguns desafios ao longo do ano e obviamente esse crescimento não se fez sentir como desejávamos. O facto de terem acontecido todos os problemas no Médio Oriente em pleno mês de março acabou por limitar muitas coisas no verão”.

Depois de um crescimento de 18% no volume de vendas entre 2024 e 2025, a Airmet apresenta este ano uma evolução mais moderada. Segundo a diretora-geral, os dados até 31 de agosto indicam que as vendas estão “muito ligeiramente” acima das registadas no período homólogo. 

Em termos de destinos, as Caraíbas, Cabo Verde e as ilhas espanholas destacam-se entre os mais vendidos pelas agências da rede. Já no que respeita aos operadores turísticos, a Newblue, a Travelplan e a Solférias continuam a liderar as vendas, sem alterações significativas face a 2025.

Susana Fonseca indicou ainda que a rentabilidade das agências foi “seguramente afetada”, sobretudo pelas campanhas de última hora e pelos aumentos dos suplementos de combustível. “Veio afetar a rentabilidade das agências de viagens, isso é inegável. Houve campanhas de última hora que vieram com preços muito abaixo daquilo que é o normal do mercado, ou preço de lançamento dos destinos, e isso reflete-se”, afirmou.

No caso dos combustíveis, explicou que, embora os fornecedores tenham procurado respeitar os limites legais de atualização dos preços, algumas agências optaram por suportar os encargos adicionais para não os repercutir nos clientes. “Temos noção de que muitas agências preferem perder dinheiro da sua rentabilidade do que colocar esse custo do lado do seu cliente, para conquistar a confiança dos mesmos”, sublinhou.

Susana Fonseca alertou ainda para a dificuldade de comunicar estes aumentos aos consumidores. “Um agente de viagens [ter de] informar o seu cliente que, afinal, vai ter que pagar mais X euros para poder usufruir da sua viagem — e se estivermos a falar, por exemplo, de viagens familiares com quatro a cinco pessoas, os encargos acrescem e muito – não é uma posição fácil de se estar”, considerou.

A instabilidade no Médio Oriente também obrigou a um acompanhamento mais próximo dos associados, sobretudo na assistência a clientes que se encontravam em viagem, no reagendamento de serviços e na gestão de reclamações. Nestas situações, a Airmet procurou funcionar como intermediária junto dos fornecedores, disponibilizando igualmente apoio jurídico às agências, de acordo com a diretora-geral.

Airmet totaliza 543 agências e quer continuar a crescer “com peso e medida”

A Airmet conta atualmente com 543 agências de viagens, mais 30 do que no ano passado, e pretende continuar a trajetória de expansão. “O objetivo é continuar a crescer com peso e medida”, afirmou Susana Fonseca. A rede dispõe de três representantes comerciais, responsáveis pelas regiões Norte, Centro e ilhas, e Sul, que trabalham na angariação de novas agências, tanto empresas recém-criadas como unidades independentes ou integradas em grupos concorrentes.

“O que dá força à Airmet para uma negociação cada vez melhor com os fornecedores turísticos é o seu volume e, como tal, naturalmente que crescer é sempre um objetivo para nós. Não desenfreadamente, queremos crescer bem, com alguma qualidade”, disse.

Com o arranque das negociações comerciais para 2027, a diretora-geral admite que as conversações com os operadores turísticos poderão ser exigentes, mas acredita que a dimensão da rede permitirá alcançar condições mais vantajosas para as suas agências.

“Seguramente as negociações poderão ser desafiantes, mas contamos que [os operadores] tragam bastantes benefícios para a nossa rede. É sempre o objetivo, é sempre esse o nosso foco”, afirmou.

Questionada sobre a relação com a World2Meet (W2M), grupo que integra a Newblue, após as divergências registadas em maio, Susana Fonseca classificou-a como “saudável” e destacou a importância comercial de ambas as partes.

“A W2M é fornecedor incontornável dentro da rede Airmet, com um peso enorme. Seguramente a Airmet precisa da World2Meet, assim como a World2Meet precisa da rede Airmet”, afirmou, garantindo que a intenção é “dar continuidade a esta relação comercial”.

Já sobre as alterações na equipa ao longo dos últimos dois anos, incluindo novas entradas e saídas em 2026, a diretora-geral reconheceu que a rotatividade de colaboradores nem sempre depende da vontade das empresas, mas garantiu estar satisfeita com a estrutura atual.

“Neste momento, a confiança das agências de viagens da Airmet na nossa equipa atual é muito grande”, assegurou. “Sinto-me muito confortável com a equipa que temos ao dia de hoje, completa no que diz respeito ao trabalho que queremos desenvolver nos próximos tempos”.

Tecnologia e marketing: novas ferramentas para apoiar as agências

A Airmet apresentou na convenção novas soluções tecnológicas e de marketing destinadas a simplificar os processos de trabalho e potenciar as vendas da rede. “Queremos ter um 2027 muito forte na área da tecnologia”, afirmou Susana Fonseca.

Entre as novidades está a “renovação praticamente total” do agregador de bedbanks, uma plataforma B2B que permite comparar os preços de unidades hoteleiras disponibilizados por diferentes fornecedores numa única pesquisa.

“Em vez de estar a procurar em nove plataformas diferentes, consegue numa única, num curto espaço de tempo, ter logo o melhor preço disponível para apresentar ao cliente”, explicou Filipe Machado, novo diretor operacional da Airmet, durante a conferência de imprensa.

Na vertente B2C, a rede apresentou a plataforma Travel Compositor, que permitirá aos clientes reservar diretamente voos, hotéis, pacotes de operadores turísticos e viagens dinâmicas, incluindo itinerários multidestino, com pagamento integrado e “sem qualquer necessidade de intervenção humana”. Segundo Filipe Machado, esta solução permitirá ter “uma porta aberta 24 horas por dia, 7 dias por semana”.

O diretor operacional destacou que a aposta tecnológica assume particular importância numa rede composta por muitas pequenas empresas, frequentemente “geridas por uma ou duas pessoas”. O objetivo passa por reduzir tarefas administrativas e repetitivas. “A tecnologia ajuda-os para que tornem o trabalho mais célere e para que se foquem naquilo que realmente lhes acrescenta valor, que é o serviço diferenciado, o aconselhamento e o apoio”, sublinhou.

Outra das novidades apresentadas na convenção foi o Airmet Marketing Hub, cuja implementação está prevista para novembro. Trata-se de uma nova área da intranet da rede que disponibilizará conteúdos de comunicação e marketing às agências de viagens.

Alexandre Pais, diretor de Marketing da Airmet, explicou aos jornalistas que a ferramenta foi desenvolvida sobretudo para apoiar as agências que não dispõem de recursos próprios nesta área, disponibilizando imagens e outros conteúdos prontos a utilizar.

“Damos tudo chave na mão. Esses conteúdos podem ser automaticamente republicados. Só têm que os descarregar da nossa intranet e podem simplesmente [utilizar] para as suas redes sociais, para newsletters, para enviar diretamente um e-mail com uma campanha para o cliente”, acrescentou Alexandre Pais.

A Airmet destacou também a aposta no Koala Travel Lab, operador turístico exclusivo da rede, apresentado oficialmente em março, durante as reuniões regionais. “Não queremos, com o Koala, nunca afrontar aqueles que já são os nossos parceiros de há anos, os fornecedores com os quais a Airmet tem trabalhado ao longo de toda a sua vida. Queremos, com o Koala, poder dar uma oferta diferenciada e destacar as agências da rede Airmet da restante concorrência”, sublinhou Susana Fonseca.

Atualmente, a programação do operador está especialmente direcionada para as ilhas portuguesas, nomeadamente Madeira, Porto Santo e Açores. Está também prevista uma operação charter entre Lisboa e Santiago de Compostela para a Semana Santa de 2027, anunciada em entrevista ao TNews pelo diretor-geral do Koala Travel Lab, Timóteo Gonçalves.

No próximo ano, manter as vendas de 2026 “será um bom objetivo”

Olhando para o próximo ano, Susana Fonseca admitiu que o contexto económico e geopolítico poderá continuar a condicionar o desempenho das agências de viagens, antecipando um cenário desafiante para o setor das viagens.

Embora ainda não tenha definido uma meta para o número de agências, a rede mantém a intenção de crescer. “Estamos otimistas que iremos crescer em número de agências”, assegurou a diretora-geral, reconhecendo, contudo, que as dificuldades financeiras podem levar algumas empresas a adiar a decisão de integrar um grupo de gestão. “Cabe-nos a nós demonstrar as vantagens de fazer parte do modelo de gestão”.

Quanto ao volume de vendas, a diretora-geral considera que igualar os resultados deste ano já será positivo. “Vai ser difícil vermos um crescimento considerando aquilo que vemos ao dia de hoje”, admitiu, apontando a instabilidade geopolítica, os custos dos combustíveis e a situação económica das famílias portuguesas como fatores que poderão continuar a pesar sobre o setor. “Dadas as circunstâncias, conseguirmos ter um ano parecido já não é um ano mau”.

Embora reconheça “algum tipo de pessimismo” entre as agências de viagens, Susana Fonseca salientou que o impacto dos desafios de 2026 não foi uniforme em toda a rede, havendo associados que conseguiram crescer e outros que sentiram maiores dificuldades.

“É natural que as pessoas fiquem de pé atrás com o futuro das viagens, porque é sempre uma das áreas mais afetadas quando este tipo de circunstâncias surgem, mas a experiência tem-nos mostrado que as agências de viagens são extremamente resilientes”, observou.

A diretora-geral considera, aliás, que os períodos de maior incerteza podem reforçar a importância das agências de viagens, uma vez que os consumidores tendem a valorizar o aconselhamento e o apoio em caso de imprevistos.

Para ilustrar o potencial de crescimento do setor, citou dados de um estudo da Associação Nacional de Agências de Viagens (ANAV), segundo os quais “cerca de quatro milhões de residentes em Portugal viajaram para o estrangeiro em 2025, e apenas pouco mais de um milhão recorreu a uma agência de viagens para viajar”.

“Há aqui uma margem enorme de crescimento para as agências de viagens. É nisso que as agências de viagens se devem focar principalmente, não tanto no negativismo”, defendeu.

A 22.ª Convenção da Airmet decorre de 30 de outubro a 1 de novembro, na Póvoa de Varzim, sob o tema “Conexões que Vendem: Parcerias, Rede e Comunidade”. O encontro reúne cerca de 400 participantes, entre agentes de viagens, parceiros, fornecedores e imprensa.

Leia também: Airmet: “O mercado não está alinhado na proteção das agências de viagens”, alerta Miguel Quintas

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