Sábado, Maio 28, 2022
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A Biblioteca de Jorge Mangorrinha: Cozinha Tradicional Portuguesa, de Maria de Lourdes Modesto

“Em todo o livro há uma viagem”

4. Cozinha Tradicional Portuguesa (Maria de Lourdes Modesto, 1981) *

Maria de Lourdes Modesto foi um rosto presente nos alvores da televisão portuguesa, desde 1958 e ao longo dos 12 anos seguintes, através de um programa pioneiro de culinária, quando hoje qualquer canal televisivo internacional tem a sua versão.

Na época, decorreu o Concurso de Cozinha e Doçaria Regional Portuguesa (1961), com o apoio da Radiotelevisão Portuguesa e do Secretariado Nacional de Informação, cujas receitas primeiras classificadas foram compiladas, primeiro, em Receitas de Cozinha e Doçaria Portuguesa, com duas edições (1971 e 1972). Estas receitas premiadas faziam parte do lote enviado por espectadoras para a televisão nessa circunstância do Concurso e durante todo o período do programa televisivo. Foi esse extenso lote que esteve na base da seleção feita por Maria de Lurdes Modesto para o seu livro seguinte. Selecionou cerca de 800 que compõem o canónico Cozinha Tradicional Portuguesa, que a editora Verbo lançou, em 1981, e que tem sido inspiração de chefs ilustres e cozinheiros anónimos. Nesta obra, há propostas representativas do saber acumulado nas várias ex-províncias de Portugal, incluindo as ilhas dos Açores e da Madeira.

O Índice Remissivo divide a obra em acompanhamentos, açordas e migas, arroz, bacalhaus, bolas/empadas/folares e pães (salgados), bolos finos e pequenos, bolos grandes, caça/capoeira, carnes, diversos, doces de colher, doces de fruta, enchidos, fritos (bolos), lampreias, legumes frescos e secos, mariscos/crustáceos/moluscos, miudezas e vísceras, papas, peixes, petiscos, pratos completos, serrabulhos e sopas.

Na produção deste livro há diferentes viagens. Em primeiro lugar, as que muitas cartas fizeram de tantas terras de Portugal até Lisboa. Depois, a viagem que a autora fez por Portugal inteiro na companhia dos dois fotógrafos, Augusto Cabrita e Homem Cardoso. E ainda a viagem de 20 anos que fez esperar o editor da Verbo até ter o material completo para a sua primeira edição. Este é um livro muito ilustrado e educativo, de que tenho a terceira edição, impressa e acabada em setembro de 1982.

No dia em que escrevo, as minhas raízes alentejanas obrigam-me a escolher e a degustar uma Sopa de Cação, admiravelmente explicada na página 228 desta edição. Fico a saber que as postas de cação devem ter cerca de 3 cm de espessura. É uma sopa que quase dispensa um segundo prato. Coentros, dentes de alho e louro perfumam a refeição. E, assim, fiquei mais composto e pronto para escrever sobre este livro.

Este é um registo antropológico de um povo. Maria de Lurdes Modesto escreveu-o com a ajuda do insubstituível contributo de numerosas pessoas, em cada região. Sempre foi o livro de culinária mais vendido e que já deliciou diferentes viajantes de Portugal através da gastronomia portuguesa, já elevada a património cultural.

Por Jorge Mangorrinha, Pós-Doutorado e Professor em Turismo

*O autor escreve todos os meses sobre um livro à escolha

** Próxima obra: Viagens de uma vida. 25 bloggers de viagem portugueses

Ver também:

A Biblioteca de Jorge Mangorrinha: Teoria da Viagem, de Michel Onfray

A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Júlio Verne

Diário de Bordo, Fernando Távora

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