O Atlantic Connect Group acusou esta segunda-feira o júri da privatização da Azores Airlines e o Conselho de Administração da SATA de terem “ignorado” os trabalhadores ao longo de um processo que “nunca teve uma verdadeira intenção de conclusão”.
Em comunicado divulgado esta segunda-feira, 2 de março, o consórcio considera que, “com ou sem divulgação do relatório”, o desfecho conhecido até ao momento “revela uma realidade que já não pode ser ignorada”: trabalhadores e investidores “participaram num processo que nunca teve uma verdadeira intenção de conclusão”.
Ao longo de três anos, o Atlantic Connect Group diz ter estruturado “uma proposta exigente, ajustada à realidade financeira da companhia”, abrindo canais de diálogo com pilotos e tripulantes. Segundo o consórcio, a situação da empresa e o seu futuro foram discutidos “com realismo”, sem promessas de “soluções fáceis”.
Os trabalhadores, acrescenta, “responderam com sentido de responsabilidade, autonomia e maturidade”, tendo sido celebrados acordos de estabilidade laboral com o SPAC e o SNPVAC, aprovados em Assembleias Gerais convocadas para o efeito.
Contudo, o consórcio afirma que a estabilidade social alcançada e os acordos firmados “foram simplesmente ignorados pelo Júri do Procedimento”, não tendo merecido “qualquer relevo na avaliação da proposta apresentada”.
Para o Atlantic Connect Group, ao rejeitar a proposta do consórcio, “o Conselho de Administração da SATA optou por manter problemas que são estruturais e que antecedem este processo”, nomeadamente: “a não separação dos Serviços Partilhados, apesar das obrigações decorrentes da decisão da Comissão Europeia; o aumento significativo do número de trabalhadores entre 2022 e 2025 sem reforço da frota; e a tentativa de impor ao comprador a assunção definitiva de obrigações que o próprio caderno de encargos previa ajustar num período de transição”.
O consórcio considera ainda que a administração da Azores Airlines “agravou drasticamente a situação da empresa nos últimos três anos e foi totalmente incapaz de separar as empresas”, persistindo situações em que trabalhadores mantêm vínculo laboral com a companhia aérea, mas exercem funções noutras empresas do grupo SATA.
“Esta situação é tão confusa que nem nos cargos de chefia foram capazes de fazer a separação”, lê-se na nota, que fala em “inércia e total incapacidade de tomar decisões ao longo de todo este processo de privatização”.
O Atlantic Connect Group considera ainda que imputar ao consórcio a responsabilidade pelo insucesso do processo é “mais uma clara manifestação da falta de pudor na condução de todo este processo”, numa tentativa de “esconder uma gestão incompetente, e contrária aos objetivos definidos pela Comissão Europeia”.
Perante este cenário, o grupo questiona se todas as partes estiveram “verdadeiramente comprometidas com o mesmo objetivo”. Enquanto o consórcio diz ter estado “à mesa com os trabalhadores” a negociar soluções e a assumir responsabilidades, “outros cenários começaram a ser preparados nos bastidores”, antecipando o fracasso da privatização “antes mesmo de esta ser formalmente encerrada”.
No plano político, o Atlantic Connect Group defende que “o Governo Regional dos Açores e a administração da SATA não podem tratar os trabalhadores como variável secundária numa estratégia política”.
“Quando o maior ativo da companhia é mobilizado para um processo desta dimensão e importância, não estão apenas em causa questões técnicas ou financeiras. Está em causa a confiança institucional”, sublinha.
O consórcio admite que poderá lamentar “o tempo e os recursos investidos”, com possíveis consequências no plano jurídico. Ainda assim, considera que “o dano mais profundo é outro”: “a confiança dos trabalhadores na condução de um qualquer processo de privatização pode ter sido seriamente comprometida”.
“Se o Governo Regional e a administração da SATA não assumirem com clareza as consequências deste desfecho, investidores e trabalhadores terão legítimas razões para se sentirem figurantes e concluírem que participaram num processo cujo resultado estava previamente definido e para o qual era irrelevante as suas propostas ou esforço”, conclui.
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