O presidente da Associação da Hotelaria de Portugal questiona a urgência em privatizar a TAP, numa altura em que a companhia “está a ganhar valor”. Em entrevista ao TNews, Bernardo Trindade defende ponderação no processo, sublinhando que é preciso dar estabilidade à nova administração da companhia e lembra que o futuro da TAP está muito dependente do que venha a acontecer na principal infraestrutura aeroportuária. Para Bernardo Trindade, urgente é ter um plano B para a responder à procura turística enquanto não existe um novo aeroporto em Lisboa.
A Comissão Técnica Independente (CTI) já definiu os cinco critérios de decisão para o novo aeroporto de Lisboa, mas não há referência à urgência que a nova infraestrutura tem para o turismo. Qual é a sua leitura?
Estive presente na reunião de apresentação dos critérios e tive a oportunidade de intervir nessa apresentação. Percebe-se que, por parte da CTI, há claramente uma preferência em termos das opções (Alcochete), mas não quis discutir isso. Julgo que o fundamental é o prazo de execução desta nova infraestrutura, que aponta seguramente para oito a dez anos. A pergunta que faço é, admitindo este crescente interesse por Portugal, tanto das companhias aéreas, como de quem nos visita, que plano B é que está a ser considerado? Se a CTI vai propor um plano B? No fundo, a hipótese de mitigar os efeitos que neste momento estão concentrados sobre o aeroporto da Portela. E a resposta não foi satisfatória. No fundo, a resposta foi: “Sim, sabemos que há um problema, sabemos que neste momento aquilo que os senhores dizem relativamente à saturação em determinados horários é uma realidade e vamos ter isso em conta na proposta que vamos fazer”. Ora, isso para mim vem introduzir um conjunto de interrogações que, para o setor do turismo, não são boas. Elas adensam o problema. Aquilo que temos vindo a exortar o Governo a fazer é a tomada de uma decisão. Os critérios estão definidos, há uma preferência por uma determinada solução, essa solução tem este prazo de execução e tem que obviamente responder a determinadas questões, designadamente as questões do ambiente e a um quadro de financiamento. Mas onde nós, turismo, queremos focar-nos é na questão do plano B, qual é o plano que está neste momento desenhado para responder a estes picos de procura? Que outras infraestruturas vão ser utilizadas para que possamos manter os níveis de procura? Claro que, podemos dizer, que o plano é avançar com as obras na Portela, avançar com a utilização de Figo Maduro. Muito bem, mas que impactos é que isto tem, isto está a ser estudado? Que aumento de capacidade vamos conseguir aportar em função destas opções? Podemos dar-nos ao luxo de estar a dispensar clientes, de estar a dispensar turistas?

Como é que responde a quem contrapõe a necessidade de um novo aeroporto, com argumentos de que Lisboa já recebe demasiados turistas?
De uma forma simplista, posso dizer que os turistas respiram o nosso oxigénio, é verdade, os turistas fazem aumentar a pegada sobre as cidades, designadamente com a questão da higiene urbana. É verdade. Mas é fundamental também que se reconheça o benefício deste consumo adicional que não só alimenta o turismo, como todo um conjunto de atividades. Julgo que é importante separarmos dois planos: uma coisa é o plano mediático, dos comentadores, daquelas pessoas que não dependem em circunstância alguma desta atividade. Por outro lado, há um conjunto de entidades públicas e privadas que beneficiam deste efeito. O caso de Lisboa é um caso interessante. Quando estive na direção da Associação de Turismo de Lisboa, fizemos uma sondagem sobre os benefícios do turismo e os resultados foram arrasadores, no sentido positivo. As pessoas basicamente diziam que o turismo veio trazer reabilitação urbana, veio trazer dinamismo aos espaços, veio trazer animação. Curiosamente, nas freguesias onde o turismo não se fazia sentir, designadamente as freguesias longe dos centros, os moradores diziam que queriam sentir esse efeito do turismo. Sim, é verdade que os turistas consomem o nosso oxigénio, são um concorrente, mas é importante olhar também para os benefícios.
Aeroporto de Lisboa: “onde nós, turismo, queremos focar-nos é na questão do plano B, qual é o plano que está neste momento desenhado para responder a estes picos de procura?”
Porque é que foi um dos subscritores do Manifesto contra a venda da TAP, em maio deste ano?
Porque sou responsável, porque sou empreendedor, porque sou dirigente associativo, porque reconheço que a TAP não é um ativo tóxico, mas é um ativo ao serviço do nosso país. A TAP traz um em cada três turistas para Portugal e, em Lisboa, um em cada dois. A TAP lidera o movimento de passageiros quer em Lisboa, quer na Madeira. Como senti que este debate estava completamente adulterado por outras questões e quem sofria com esse efeito era a TAP, era importante, do ponto de vista cívico, integrar uma plataforma que defendesse a TAP no sentido desta premissa principal: não é um ativo tóxico, é um ativo ao serviço do país, que cria valor, que traz exportações, turismo e cria emprego.

Mas a decisão de privatizar já está em andamento e parece inevitável.
Fui administrador não executivo da TAP, trabalhei com uma equipa vasta no plano de reestruturação da TAP, a TAP não tinha um balanço compatível com as ajudas da Covid-19, teve de sofrer um plano de reestruturação, um plano de reestruturação que passou pela dispensa de cerca de 3 mil famílias, o que é absolutamente relevante. Aquilo que nós dizemos é o seguinte: a TAP não tem dimensão hoje à escala global para competir com as low cost, nem dimensão para competir de forma individualizada com as ditas companhias de bandeira, designadamente no tráfego de longo curso. Terá que, no futuro, associar-se. Essa associação pode passar pela abertura do capital da companhia, agora o que para nós é fundamental é assegurar o dito interesse nacional. E isso faz-se com três premissas fundamentais: a sede em Portugal, o hub em Lisboa, e um olhar muito atento sobre a diáspora e as regiões autónomas dos Açores e da Madeira. Considerando isto é possível ter uma companhia de bandeira portuguesa a servir Portugal e a ser um instrumento de mobilidade para um conjunto vasto de setores de atividade, designadamente para o setor do turismo.
Quero, no entanto, chamar a atenção para o seguinte: andamos muito focados na questão da urgência na abertura do capital da TAP. Em função dos números que já conhecemos, a pergunta que faço é: a TAP está a ganhar ou a perder valor? Acredito que a TAP está a ganhar valor. Se está a ganhar valor, uma abertura de capital mais dilatada no tempo vai beneficiar a companhia.
É isso que defende?
Face à constatação de que a decisão de privatizar a TAP está tomada, deixo esta questão: a TAP está a ganhar ou a perder valor? Face aos números do turismo, nomeadamente, a TAP está a ganhar ou a perder valor? A TAP não está a perder valor. Além disso, há outra coisa que me parece importante e que nunca é referido. A TAP tem hoje um novo chairman e um novo CEO, o Dr. Luís Rodrigues assumiu essa responsabilidade. Foi CFO da TAP no tempo da administração do Fernando Pinto. Foi presidente da SATA. É importante também que nesta fase possamos dar estabilidade à própria companhia. Todas estas decisões têm que ser tomadas com tempo. Mais, há outra questão que se liga com esta, que tem a ver com a decisão do novo aeroporto. Como é evidente, o futuro da TAP está muito dependente do que venha a acontecer na principal infraestrutura aeroportuária, porque é lá que se encontra o hub.
Julga que se devia fechar primeiro o dossier do aeroporto, para depois privatizar a TAP?
Julgo que tudo isto tem de ser feito com ponderação. Voltando à questão inicial: a TAP não está a perder valor, não estando a perder valor, podemos fazer as coisas conferindo estabilidade à administração, por um lado, e acompanhando bem o processo final de decisão relativamente ao novo aeroporto, por outro. Decisões tomadas precipitadamente, normalmente, dão mau resultado.






