“Há dez anos atrás, Portugal Continental era o único mercado que não crescia na Madeira. Neste momento é líder em termos de hóspedes”, afirmou esta quinta-feira o secretário regional de Turismo, Ambiente e Cultura, Eduardo Jesus. As declarações foram feitas num encontro com a imprensa à margem da BTL – Better Tourism Lisbon Travel Market, onde foi apresentado o programa Upgrade, que representa uma mudança na gestão do território e na forma como o destino acolhe os visitantes.
Eduardo Jesus começou por fazer o balanço de 2025, ano que considerou “bastante positivo”, durante o qual “o mercado nacional se voltou a afirmar de maneira muito vincada”. Segundo o governante, “foram 603 mil pessoas que foram de Portugal Continental à Madeira e ao Porto Santo durante 2025, o que correspondeu a um crescimento de 10%”.
O crescimento ganha maior dimensão quando analisado numa perspetiva de dez anos. Em 2015, Portugal Continental era o único mercado que não apresentava crescimento. Hoje, lidera em hóspedes, tendo ultrapassado os mercados alemão e inglês, e ocupa o segundo lugar em termos de número de dormidas. “Este crescimento em dez anos é de 150%, ou seja, passámos de 241 mil para 603 mil hóspedes”, sublinhou.
Em dormidas, os cinco principais mercados na Madeira são Alemanha, Portugal, Inglaterra, Polónia e França. Já em número de hóspedes, Portugal ocupa o primeiro lugar, seguido da Alemanha, Inglaterra e Polónia.
Apesar do “ano fantástico”, o governante advertiu que não é sustentável manter ritmos de crescimento tão elevados, defendendo que a prioridade deve estar “mais no valor do que na quantidade”. Apesar dessa orientação estratégica, “a verdade é que aconteceu nas duas frentes”.
Os hóspedes totais cresceram 9,1% em 2025, “um crescimento de quase dois dígitos relativamente ao ano anterior”. Por outro lado, verificou-se aquilo que o Executivo privilegia: “o crescimento do valor é o dobro do crescimento da quantidade”. Em dez anos, os proveitos totais aumentaram 170%, enquanto as dormidas cresceram 80%, evidenciando um “efeito mais do que proporcional na evolução dos valores”.
Programa Upgrade assenta em “três grandes pilares”
No balanço da década, o Governo Regional assumiu “a necessidade do desenvolvimento de um novo programa”: o Upgrade. “Tem a ver com vários níveis de intervenção que entendemos que são sensíveis para que se continue a afirmar esta caminhada da Madeira”, afirmou, acrescentando que assenta em “três grandes pilares”.
Um dos eixos prende-se com a “relação do turista com o residente“, realidade que, segundo o governante, tem sido “muito sensível noutras geografias”, mas não na Madeira. Um estudo da Direção Regional de Estatística revela uma perceção positiva dos residentes quanto à importância do turismo nas suas vidas, “nomeadamente em vários níveis a mobilidade”.
Nesta área, há “duas frentes” prioritárias. A primeira diz respeito ao alojamento local. Foi realizado um estudo às 54 freguesias da região, calculando a intensidade e a densidade turística — indicadores utilizados pela Organização Mundial do Turismo para medir a pressão da atividade turística. Com base nessa radiografia, o Governo está a “reunir com todas as câmaras municipais e a transmitir a radiografia de cada um dos municípios”.
“O licenciamento é uma competência municipal, não é do Governo Central nem do Governo Regional. Não podemos interferir nessa política, mas podemos disponibilizar informação para qualificar a decisão dessa mesma Câmara”, afirmou.
Paralelamente, a Câmara Municipal do Funchal mantém suspensa a aprovação de novos alojamentos locais em prédios de habitação. “A tendência desejável será que o licenciamento do alojamento local não tenha o mesmo ritmo sentido em prédios de habitação, que é onde se pode gerar o maior conflito”, reforçou.
Foi ainda lançada a campanha “Explora, Respeita e Preserva”, com o objetivo de sensibilizar os visitantes para comportamentos adequados. “É dar à pessoa que chega à Madeira a liberdade de explorar [o destino], mas, ao mesmo tempo, respeitar o território e atender aos hábitos, aos costumes, à conduta para não haver choques”, explicou.
Outro pilar é a qualificação da experiência turística. Entre as medidas adotadas estão as regras reforçadas para os 42 percursos pedestres, que somam 240 quilómetros. Após um estudo sobre a capacidade de carga, foi implementado um sistema de marcação com slots de 30 em 30 minutos, através da plataforma SIMplifica. Esta medida está em funcionamento desde 1 de janeiro e “acaba com esta tendência de aglomerar pessoas à mesma hora”.
Além disto, a Associação de Promoção da Madeira lançou um canal unidirecional de WhatsApp para que os visitantes possam “receber recomendações do dia e informações variadas sobre o que está a acontecer na Madeira”, incluindo “toda a programação da animação”. “É mais um canal que está à nossa disposição para informar as pessoas”, salientou.
No setor das rent-a-car, foi feita uma “adaptação da lei nacional às especificidades regionais”, introduzindo exigências ao nível da sustentabilidade, nomeadamente a obrigatoriedade de “existência de carros elétricos” nas frotas e regras quanto ao parqueamento, evitando a ocupação de espaços públicos gratuitos destinados aos residentes.
“As rent-a-cars passam a ter a obrigação, em função da dimensão da frota, de dispor de X lugares que ficam contratados pela rent-a-car ou propriedade da rent-a-car onde vão parquear os automóveis”, explicou.
O terceiro pilar incide na qualificação da oferta. Está em curso um trabalho com a ANA – Aeroportos de Portugal para “atrair e acolher bem os jatos privados”, o que “permite um posicionamento diferente do destino para essas pessoas, e são cada vez mais aquelas que nos procuram por essa via”.
Em paralelo, está a ser trabalhado com a ANAC – Autoridade Nacional da Aviação Civil a possibilidade de “recuperar a atividade dos helicópteros turísticos”, com “alguma dificuldade associada ao processo”.
A “qualificação dos colaboradores do setor” é outra prioridade. O Governo regional está a trabalhar com a Associação Comercial e Industrial do Funchal no levantamento das necessidades formativas do setor. Como alertou, “se não pagarmos bem, a flutuação dos colaboradores é muito grande, e uma flutuação dos colaboradores nunca significa qualidade de um serviço. A qualidade consegue-se com consistência, e a consistência consegue-se com condições de trabalho”.
Por fim, o Observatório de Turismo da Madeira passou a integrar nos seus inquéritos o parâmetro da qualidade da oferta, permitindo avaliar, junto de quem sai da região, a apreciação global do destino.



