Domingo, Março 15, 2026
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Litoral alentejano: “Não temos um problema de massificação nem de turistificação, longe disso”

O presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo considera que, embora não haja massificação, há um desafio de sazonalidade no litoral alentejano. A taxa de sazonalidade é alta, especialmente a norte de Sines, e é necessário distribuir melhor os turistas ao longo do ano. José Santos defende um equilíbrio entre investimentos em turismo e a preservação da autenticidade do território. No balanço do seu primeiro ano de mandato, o responsável enfatiza o regresso ao terreno e o trabalho realizado para promover o Alentejo, com estratégias de longo prazo para fortalecer a presença regional e atrair investimentos e visitantes.

Hoje o Alentejo enfrenta um problema de desequilíbrio dos fluxos turísticos, com o litoral e Évora a receber mais turistas?

Não temos um problema de massificação nem de turistificação, de longe. O que enfrentamos é um problema de sazonalidade mais acentuado no litoral alentejano, com uma taxa de sazonalidade superior a 50%. Precisamos distribuir melhor os turistas ao longo do ano. Curiosamente, essa sazonalidade é mais marcada a norte de Sines até Tróia, sendo menos pronunciada de Sines até Odemira, devido à Rota Vicentina, que tem o seu pico entre outubro, novembro, março e abril.

Não há um problema de massificação, é preciso encontrar algumas soluções. Recentemente, a Ministra do Ambiente anunciou a abertura de mais três praias em Grândola, o que é uma medida interessante para dispersar a concentração de turistas no verão.

Não diria que há um problema de massificação, longe disso, mas há um problema de distribuir melhor os fluxos turísticos no litoral alentejano durante o ano, especialmente de Sines para cima. Em Évora, a sazonalidade não é tão acentuada e, portanto, é preciso criar mais motivos de atração, mais conteúdos em época baixa. É uma gestão de fluxos turísticos perfeitamente normal, estamos a falar de uma cidade que tem 700 mil dormidas e uma uma grande dinâmica hoteleira – este mês de setembro vai abrir um novo hotel.

Estamos a trabalhar para equilibrar a distribuição da oferta turística. No Alentejo Central, que é muito polarizado por Évora, e no litoral alentejano, mais de 60% da oferta está concentrada. Estamos a implementar projetos, como os roteiros de investimento, para apoiar os municípios e promover o investimento em outras áreas, como Portalegre, Campo Maior, Avis, Santarém e Alpiarça. Contratámos uma equipa de consultores para ajudar os municípios a preparar dossiers e atrair investidores.

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O maior número de novos projetos está no eixo Troia, Melides e Comporta. Isso não vai adensar o problema de massificação?

Repare, estamos a falar de projetos que, na sua maioria, foram licenciados há 10 anos ou mais. Muitos desses projetos são de baixa escala, e houve uma redução de 30% no número de camas, pois os promotores ajustaram os modelos de resort às novas realidades do mercado. No entanto, há desafios significativos naquela zona. Passámos, entre 5 a 10 anos, a ter mais de 20 mil camas, o que é de facto uma pressão muito grande naquele território. Daí termos lançado a iniciativa que lhe referi ainda há pouco, no sentido de tentar antecipar e identificar algumas medidas que contribuam para a gestão do território. O turismo não é um dado adquirido. Não é adquirido que estaremos sempre a crescer a dois dígitos, basta ver os acontecimentos que têm sucedido nos últimos tempos, pandemias, crises económicas, etc. E, portanto, nós temos que garantir que os fatores de atratividade do turismo se mantenham sempre relevantes.  Por exemplo, a instalação de grandes centrais fotovoltaicas em zonas turísticas, os turistas não vêm aos territórios para ver florestas de vidro. Ou os projetos agrícolas que não são sustentáveis. Portanto, há um conjunto de situações às quais nós temos que estar atentos e que são importantes para que o território mantenha a sua competitividade turística. Gestão, sustentabilidade, são palavras de ordem e que no litoral alentejano têm que ser tidas em consideração.

“Não queremos um modelo de desenvolvimento turístico em que os turistas vivem enfiados num resort. Queremos que os turistas participem naquilo que é a vida do território”

Que leitura se pode fazer de notícias como a de que Grândola pretende acomodar duas vezes mais camas turísticas do que a população residente atual?

Grândola enfrenta um desafio enorme com a quantidade de camas licenciadas. O Alentejo, de 2013 a 2023, teve a maior taxa de crescimento médio anual do país, atraindo investidores que veem potencial na região.  Alentejo é a região que entre 2013 e 2023 teve a taxa de crescimento médio-anual mais alta do país, portanto, os investidores avançam onde percebem que há dinâmica, onde há potencial. Não queremos um modelo de desenvolvimento turístico em que os turistas vivem enfiados num resort. Queremos que os turistas participem naquilo que é a vida do território. Não queremos artificializar aldeias e vilas no Alentejo, nem transformar o Alentejo em estâncias de luxo. Mas pode haver luxo no Alentejo. E há luxo no Alentejo. E isso é bom, porque posiciona o Alentejo nos mercados internacionais, cria riqueza e cria postos de trabalho. Mas temos de manter um equilíbrio entre esse luxo, entre esse investimento, e aquilo que é a autenticidade e a identidade do território.

Se é possível? É. Vai dar muito trabalho? Vai. Estão os políticos e as entidades locais e regionais sensibilizados para isso? Temos que ser nós a fazer esse trabalho. Temos que nos sensibilizar.

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Qual é o papel da ERT nesse processo?

Admito que o papel da ERT pode ser um pouco limitado, mas não podemos desresponsabilizar-nos da nossa função na gestão e na ligação entre a administração e os empresários. Juntámos na mesma sala a Sonae, o Pestana, o Costa Terra, a CCDR, o ICNF, a APA e os presidentes de Câmara. Nunca ninguém tinha feito isso. Isso é o nosso papel. Por exemplo, discutimos a possibilidade de uma frota comum para trabalhadores da região de Tróia, reduzindo a pegada de carbono.

No Alqueva, está em perspectiva a revisão dos planos de ordenamento das albufeiras do Alqueva e de Pedrogão, e nós estamos a fornecer os insights sobre turismo, através de consultoria contratada, que irão ajudar os municípios a trabalhar com a Agência Portuguesa do Ambiente. O nosso papel é agregar valor e contribuir para soluções sustentáveis.

“No Alentejo, nenhum concelho aplica a taxa turística atualmente, mas isso pode mudar”

O Alentejo é a única região do país em que a taxa turística não está a ser aplicada. Qual é a sua opinião sobre as taxas turísticas?

Tenho uma opinião pessoal, mas também um papel de árbitro pelas funções que exerço. Pessoalmente, sou contrário à taxa turística, mas isso não é determinante. As cidades devem avaliar se precisam de uma fonte de financiamento para se prepararem melhor para o turismo. Admito que a taxa turística possa ser importante em alguns contextos, mas tem que haver um estudo prévio que demonstre e justifique o porquê e para quê e quanto é que se vai arrecadar. A taxa deve ser bem fundamentada e justificar o seu impacto e os seus objetivos. No Alentejo, nenhum concelho aplica a taxa turística atualmente, mas isso pode mudar. Évora, Grândola e Odemira são os concelhos com mais dormidas. A ERT estará sempre disponível para trabalhar com os municípios, com os empresários, na procura das melhores soluções que, não pondo em causa a competitividade turística e a atração turística, possam ajudar a ter melhor turismo para esses territórios

Após um ano de mandato, qual a marca que pretende deixar?

O que posso dizer é que tivemos que regressar ao terreno, após um período em que a ERT estava menos visível. Implementamos uma estratégia de escuta ativa, identificando problemas e expectativas diretamente com as partes interessadas. Num ano, conseguimos aprovar uma estratégia para o enoturismo, uma candidatura para a Serra d’Ossa, um projeto para as fortalezas do interior, dois planos de promoção turística, uma campanha para o mercado espanhol, um programa para atrair e fixar talentos e pessoas no Alentejo. Isto implicou muito trabalho de gabinete. Também tivemos que reforçar muito a promoção. Fomos convidados para ser o Destino Nacional da BTL e em quatro meses estivemos em mais feiras do que estivemos nos últimos três anos. Houve muito trabalho de promoção, muita presença nos media e tivemos que distribuir este trabalho também pelo Ribatejo. Portanto, presença no terreno, grande contra-relógio no Ribatejo e grande contrarrelógio na promoção, planeando o médio prazo. Ou seja, projetos e programas que vamos executar nos próximos três a cinco anos.

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