PERFIL | Lídia Monteiro: uma carreira a criar novas formas de contar Portugal

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Começou na Engenharia Agrícola, passou pela televisão e pelo ICEP e dedica há mais de duas décadas o seu percurso profissional à comunicação e promoção de Portugal. Hoje, como vogal do Conselho Diretivo do Turismo de Portugal com o pelouro do Marketing e Promoção Internacional, continua a trabalhar para levar o país ao mundo, com a criatividade, a curiosidade e a vontade de arriscar que sempre marcaram o seu percurso. Entre viagens, projetos, arte, cultura e uma paixão assumida por Portugal, Lídia Monteiro acredita que há sempre novas formas de contar o país — e que “não é criar por criar”, mas criar com um propósito e um impacto. Nesta conversa com o TNews, fala sobre a carreira liderança, os desafios que ainda quer abraçar e a forma como continua a encontrar inspiração “em todo lado”.

Um ano depois do lançamento da campanha de enorme sucesso Can’t Skip Portugal, o Turismo de Portugal preparava-se para levar a Nova Iorque, mais concretamente à Times Square, uma das ativações mais impactantes da sua estratégia de promoção internacional.

Foi a 15 de junho de 2018 que a onda gigante da Nazaré chegou aos ecrãs de um edifício com cerca de 30 metros, no coração de uma das praças mais conhecidas do mundo. A ativação aconteceu durante a visita do então primeiro-ministro António Costa aos Estados Unidos e contou com a presença de dois dos nomes que ajudaram a construir a história da Nazaré enquanto destino de surf: Garrett McNamara e Rodrigo Koxa, o brasileiro que, em 2017, tinha estabelecido um novo recorde mundial da maior onda alguma vez surfada.

Lídia Monteiro, na altura diretora de marketing e promoção do Turismo de Portugal, estava lá. Mais do que assistir ao momento, passou uma semana em Times Square a acompanhar os testes e a garantir que a campanha acontecia como tinha sido pensada. “Basicamente tive uma semana em Times Square. Sem sair da praça”, recorda.

A campanha, que colocou a onda de 24,38 metros surfada por Rodrigo Koxa nos ecrãs LED, era muito mais do que uma ação de impacto visual. Era uma aposta para apresentar Portugal a um mercado de enorme dimensão através de um território específico — o surf — e criar, a partir daí, uma relação mais consistente com os Estados Unidos.

“Foi o início das nossas campanhas nos Estados Unidos. Na verdade, houve um antes e um depois da nossa presença nos Estados Unidos”, lembra Lídia Monteiro.

Na altura, as variáveis e a dimensão da operação não lhe permitiam ter a certeza de que tudo iria correr como planeado. Mas isso não a trava — e talvez seja esse um dos traços que melhor definem a sua personalidade profissional.

“Na verdade, nunca tenho a certeza de que um projeto vai resultar. E acho que isso não me trava. Pelo contrário. Acredito mesmo muito que não é preciso ter muitas certezas, antes pelo contrário. É melhor que exista alguma incerteza para estarmos focados naquilo que é essencial.” É a resposta que dá à pergunta: qual foi a maior aposta profissional que fez e que, na altura, não tinha a certeza de que ia resultar?

A estratégia passava por encontrar uma porta de entrada num mercado demasiado grande para ser abordado de forma indiferenciada. O surf acabou por ser essa porta. A exposição mediática gerada pela campanha, com a presença de meios de comunicação norte-americanos e dos próprios surfistas, ajudou a dar escala à mensagem, mas o impacto pretendido ia além da comunicação: o objetivo era também valorizar Portugal enquanto destino ligado ao mar, à natureza, à aventura e a novas experiências.

Lídia Monteiro

A campanha viria a ser reconhecida pelo próprio setor da criatividade no ano seguinte, em 2019. O Turismo de Portugal foi distinguido como “Anunciante do Ano” no Festival do Clube de Criativos de Portugal, enquanto a campanha “Onda gigante da Nazaré em Nova Iorque” conquistou o Grande Prémio Jornalistas e os prémios de “Melhor Cliente” nas categorias de Ativação de Marca e Publicidade.

Para Lídia Monteiro, contudo, o reconhecimento nunca é apenas individual. Foi distinguida como Personalidade de Marketing do Ano, em 2018, Marketeer do Ano, em 2022, e recebeu, em 2024, o primeiro Prémio Alumni da UTAD. Mas, quando se lhe pergunta como lida com o sucesso, prefere imediatamente retirar-se do centro da fotografia. “Tenho sempre muito pudor em falar na primeira pessoa, pois o sucesso atinge-se com uma equipa que está por trás.” Recebe os prémios com “humildade e sem deslumbramento”, reconhecendo neles uma honra, mas também “boas doses de motivação e de confiança”. Resume a relação com o reconhecimento numa frase que talvez diga tanto sobre ela como qualquer prémio: “Sinto-me sempre muito emocionada e muito agradecida, mas não fico deslumbrada. O sucesso não me deslumbra.”

Para perceber de onde vem esta forma de estar, a relação com a comunicação e a vontade de arriscar na promoção de Portugal é preciso recuar aos tempos de estudante. Lídia Monteiro queria ser bailarina. Ou atriz. Acabou por entrar em Engenharia Agrícola na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), em Vila Real, depois de não conseguir entrar em Psicologia, o curso que inicialmente queria.

Como lida com O Reconhecimento? “Sinto-me sempre muito emocionada e muito agradecida, mas não fico deslumbrada. O sucesso não me deslumbra”

Nasceu em Vila Real e assume-se “transmontana e doriense”. Aos 18 anos, porém, não encarou o desvio na área de estudo como um problema. Pelo contrário. “Eu julgo que com 18 anos estamos muito disponíveis para outras coisas”, recorda. Os pais tinham-lhe dado liberdade para experimentar e, se percebesse que não era aquilo que queria, poderia sempre mudar de curso.

Não mudou. “E o que é certo é que me apaixonei”, conta. A Engenharia Agrícola acabou por abrir uma porta para um universo que ia muito além das matérias técnicas. Na universidade, encontrou um grupo de teatro, outro de fotografia e outro de cinema. Entre as ciências agrárias, foi também descobrindo as humanidades e a arte. “Acabei por estudar numa escola de ciências agrárias, mas com muitas humanidades e muita arte à minha volta.”

A universidade foi, por isso, mais do que uma formação académica. Foi um período de experimentação, de viagens e de descoberta. Durante algum tempo, permaneceu na UTAD integrada num projeto do Banco Mundial dedicado ao desenvolvimento rural, onde começou a estudar o Nordeste Transmontano, nomeadamente a zona de Miranda do Douro.

Depois, a vida voltou a empurrá-la para outro lugar. A Política Agrícola Comum estava em profunda mudança e, ao fim de três ou quatro anos, surgiu o convite para vir para Lisboa participar num programa de televisão destinado a explicar essas alterações aos agricultores. Foi aí que encontrou, de forma mais concreta, uma área que já a atraía: a comunicação, a televisão, a realização.

O caminho começava a desenhar-se, ainda que sem um plano fechado. A comunicação como ponto de encontro. O marketing, admite, não foi uma escolha que tenha feito de forma deliberada desde o início. “Foi acontecendo.” Mas a comunicação estava lá. No 12.º ano, ainda dividia as suas inclinações entre dois mundos: de um lado, a facilidade para a matemática; do outro, o gosto pela leitura e pelas artes.

A resposta acabaria por estar algures no meio. “Sempre estive entre o mundo das ciências exatas, as humanidades e a arte”, constata.

Já em Lisboa, continuou ligada ao programa de televisão dirigido aos agricultores. Depois surgiu o convite para trabalhar no ICEP, e foi aí que começou a trabalhar Portugal, a marca Portugal e a sua internacionalização. O turismo viria depois, quase como “um passinho”, nas suas palavras.

Olhando para trás, percebe que a comunicação nunca foi propriamente uma surpresa. Não sabia exatamente se seria o marketing, a televisão ou outra área dentro desse universo, mas sabia que queria trabalhar com comunicação. E foi preparando esse caminho. Fazia cursos de fotografia e cinema, participava em workshops e em encontros de jovens ligados a essas áreas. Ia acumulando ferramentas enquanto descobria onde poderiam ser aplicadas. “Sabia que um dia eu ia trabalhar nessas áreas.”

“Sempre estive entre o mundo das ciências exatas, as humanidades e a arte”

Talvez a resposta para essa escolha esteja numa característica que permanece até hoje: o gosto pelas pessoas. “Eu gosto muito de estar com as pessoas, gosto de falar”, diz, entre risos. Gosta de se relacionar, de trocar ideias e de estar em contacto com os outros. Mas há uma segunda dimensão, menos evidente, que também assume: precisa do seu espaço. “Também gosto da solidão.”

Assumiu o cargo de diretora de comunicação do Turismo de Portugal em 2005, mas reconhece que comunicar a marca Portugal não se tornou mais previsível vinte anos depois. Pelo contrário. “Olho para o nosso país sempre com tanta curiosidade e deparo-me a cada dia com tantas surpresas que Portugal ainda me dá. É uma paixão muito grande.”

A promoção de Portugal, para Lídia Monteiro, acabou por deixar de ser apenas uma questão turística. Ao longo do percurso, passou a olhar para o país como um todo, para as suas diferentes expressões e para a forma como essas histórias podem ser contadas. “Portugal surpreende-me sempre.” Hoje em dia, não consegue desligar completamente o olhar profissional quando viaja. Repara na experiência, na comunicação, nos detalhes. Não apenas em Portugal, mas também fora do país. É muitas vezes nessas viagens que encontra inspiração para novos projetos e ideias. “Não consigo ser uma viajante, digamos, desprovida da visão do profissional.”

“Olho para o nosso país sempre com tanta curiosidade e deparo-me a cada dia com tantas surpresas que Portugal ainda me dá. É uma paixão muito grande”
 

Ainda há muito por fazer

Quando lhe perguntamos o que ainda gostaria de fazer profissionalmente e que ainda não teve oportunidade de concretizar, Lídia Monteiro não hesita. “Muitas coisas, tantas coisas.” Continua a pensar em novos projetos praticamente todos os dias, porque acredita que o turismo tem uma capacidade de transformação que ainda está longe de estar esgotada. “Olho cada vez mais para a nossa indústria como realmente a indústria do bem.” Hoje, sente que há uma pergunta que também merece ser feita dentro do turismo: o que acontece às mulheres que fazem crescer esta indústria?

É um tema que gostaria de ajudar a transformar. “Tenho muita tristeza de ver tantas mulheres com tanto valor, com tanta capacidade que trabalham no turismo e que fazem parte e que fazem crescer esta indústria e não são valorizadas.” Não as vê suficientemente representadas nos fóruns do setor. “Na maior parte dos fóruns do turismo, as mulheres não aparecem.” E entende que a mudança não pode ser apenas uma reivindicação das próprias mulheres. Também os homens têm de participar nesse processo. “Porque isto não é uma iniciativa que tem que ser apenas das mulheres, na verdade o género vive em conjunto e é essa riqueza de género que é importante.”

“Olho cada vez mais para a nossa indústria como realmente a indústria do bem”

Existe outra transformação que gostaria de ajudar a concretizar e que recupera, de certa forma, a ligação às suas primeiras experiências no desenvolvimento rural: levar o turismo mais longe dos grandes centros e fazer dele um motor para os territórios do interior.

O turismo, defende, já teve um impacto profundo nas cidades e na costa portuguesa. Lisboa e Porto recuperaram os seus centros históricos, enquanto o litoral encontrou no turismo uma fonte de crescimento e riqueza. O próximo passo, acredita, passa pelas comunidades mais pequenas.

“Eu julgo que o que falta agora é a indústria do turismo também ter esse papel nas comunidades mais pequenas.” É aí que gostaria de trabalhar cada vez mais. Não apenas nos grandes projetos, mas nos detalhes que tornam cada território diferente: as artes tradicionais, os escritores, os sabores, os produtos locais. “É aqui que gosto de pensar que tenho aqui ainda um papel para fazer e que gostava de trabalhar.”

Conselho Diretivo do Turismo de Portugal

A entrada, em 2023, para o Conselho Diretivo do Turismo de Portugal representou mais uma etapa, mas não uma ruptura. A área de responsabilidade manteve-se ligada ao trabalho que já vinha desenvolvendo enquanto diretora coordenadora. “Foi mais um degrau do ponto de vista de responsabilidade, mas numa área em que eu já trabalhava.”

A diferença esteve sobretudo no peso da responsabilidade e, particularmente, na representação institucional. Tomar decisões, por outro lado, não é uma novidade. É uma parte do trabalho com que convive há muitos anos e na qual diz sentir-se particularmente confortável. “Gosto de tomar decisões, é algo que eu realmente gosto.”

Antes de decidir, analisa. Pensa nas situações, procura soluções, pondera os caminhos possíveis. Mas há uma aparente contradição na forma como finalmente escolhe: apesar de ser “bastante analítica”, admite que, no momento da decisão, é a intuição que acaba muitas vezes por falar mais alto.

É também uma líder que prefere a proximidade à distância. “Tento ser uma líder de proximidade. Gosto de estar próxima das coisas e de estar muito próxima dos projetos e das pessoas que trabalham comigo.” Lídia Monteiro não acredita numa liderança baseada apenas em orientar e dar ordens. Quer equipas que tragam ideias, que cresçam e, sobretudo, que sejam capazes de a desafiar. “Acima de tudo, gosto também de equipas que me tragam ideias que me desafiem. Ou seja, não acredito num líder que apenas orienta e dá ordens.”

Há, porém, uma coisa que o tempo e a experiência não parecem ter conseguido eliminar: o nervosismo antes de um novo desafio. “É como quando fazíamos teatro na universidade, que o primeiro passo antes de entrar em palco é terrível, mas quando se está em palco tudo passa.”

Acontece-lhe ainda hoje, sobretudo antes das muitas intervenções públicas que faz, incluindo aquelas em universidades, junto de estudantes, uma atividade de que gosta particularmente. O momento imediatamente anterior é sempre de tensão. Há um primeiro olhar para a sala, um instante de desconforto antes de começar.

Para o ultrapassar, criou um pequeno exercício mental. Antes de subir ao palco, lembra-se de que o mais importante é ser honesta consigo própria e com quem a está a ouvir. “Quando tenho esse pensamento, acho que me dá tranquilidade para, de uma forma natural, poder partilhar aquilo que eu fui aprendendo ao longo da vida e podendo partilhar com as pessoas.”

A bailarina ou atriz que queria ser aos 18 anos não desapareceu completamente. A expressão artística deixou de fazer parte da sua vida profissional, mas continua presente naquilo que gosta de fazer. Gosta de assistir a bailado, sobretudo contemporâneo, frequenta exposições de arte, lê e vê cinema. E, embora a dança não tenha seguido com ela para a vida profissional, a curiosidade artística parece ter permanecido. “Eu vejo inspiração em todo lado.”

Quando lhe pedimos um conselho para a Lídia Monteiro que estava no início da carreira, a resposta é simples: “Não percas nunca a curiosidade e não tenhas medo de errar.” A segunda parte do conselho não lhe é particularmente fácil de aplicar. Reconhece que é “um bocadinho controladora” e que a ideia de errar não é algo de que goste.

Tnews

Uma rotina que começa no dia anterior

Os primeiros momentos do dia são normalmente dedicados aos e-mails que chegaram fora de horas. Mas, na verdade, um dia de trabalho começa no dia anterior. “Normalmente o meu dia de trabalho começa no dia anterior. Vejo o que é que eu tenho para fazer no dia seguinte.”

Depois, a agenda adapta-se ao lugar onde estiver. Pode estar em Lisboa, numa viagem por Portugal ou fora do país, mas o computador acompanha-a. Os períodos do início do dia, da hora de almoço e do final da tarde ficam, tanto quanto possível, reservados para e-mails e assuntos administrativos. O resto é preenchido por reuniões, pela equipa e pelas pessoas que lhe apresentam projetos.

A geografia também dita parte da rotina. Antes de sair de casa, fala com as equipas do Turismo de Portugal no Japão, na China e na Índia. No regresso, já a caminho de casa, é a vez das equipas no Brasil e nos Estados Unidos.

“Tenho pouca rotina”, resume. E é talvez essa a melhor definição para uma vida profissional em que os dias raramente se repetem.

Quando a agenda deixa espaço, Lídia Monteiro procura precisamente aquilo que o trabalho, tantas vezes, não permite: tempo para si, cultura e alguma desconexão. Gosta de filmes e séries, de ler, de ir à praia, de exposições, de concertos e festivais. Gosta de viajar. E há ainda uma paixão menos previsível: as plantas.

Não tem muitas em casa porque o espaço não permite grandes exageros, mas gostava de ter mais. E gostava, sobretudo, de ter uma horta. Vai cultivando ervas aromáticas quando consegue e encontra também na cozinha uma forma de desligar. “Gosto de cozinhar. Descontraio imenso.”

É uma dimensão que ajuda a perceber uma pessoa que, apesar de passar grande parte da vida profissional a falar de destinos, culturas e experiências, encontra prazer também em coisas pequenas e concretas.

Quando se pergunta por um lugar de Portugal que prefira deixar em segredo, responde prontamente: “Há um lugar em Portugal que eu gosto muito e não gosto de deixar em segredo: Foz Côa”.

Há uma contradição interessante na forma como viaja. As viagens de trabalho são planeadas ao detalhe. As outras, nem por isso. “Improviso tudo”, revela. No trabalho, sabe quando sai, onde vai estar e o que tem de fazer. Nas viagens de lazer, pelo contrário, deixa espaço para que o destino aconteça. Pode decidir ir a uma cidade especificamente para ver uma exposição ou determinada manifestação cultural. Reserva o restaurante que quer conhecer, organiza aquilo que considera essencial e, depois, deixa o resto em aberto.

A última viagem feita apenas pelo prazer de viajar levou-a aos Pirenéus. Foi, também aí, tudo improvisado.

Tnews

Portugal sem perder aquilo que o distingue

Depois de mais de duas décadas dedicadas à comunicação e promoção de Portugal, a ideia de futuro que Lídia Monteiro tem para a Marca Portugal não passa apenas pelo reconhecimento enquanto destino turístico.

Daqui a 20 anos, gostaria de ver uma marca reconhecida internacionalmente pelo “prestígio, pela sua autenticidade, pela sua capacidade de inovação e de valor gerado”. Uma marca forte, com valor económico e reputacional, sustentada também por grandes marcas portuguesas com presença nos mercados internacionais e capazes de afirmar “a excelência, o talento e a identidade de Portugal no mundo”.

Há uma linha que considera essencial não ultrapassar: “Eu acho que Portugal não deve ser transformado num produto turístico.”

A forma de o promover, defende, passa antes por aquilo que o país tem de mais próprio: os seus valores, a cultura, os escritores, os artistas, os artesãos. É aí que encontra a verdadeira diferenciação. “Eu acho que é a cultura que nos dá distinção, que nos torna diferentes dos outros.”

Para Lídia Monteiro, essa identidade não significa fechar Portugal sobre si próprio. Pelo contrário. A capacidade histórica do país para incorporar diferentes culturas, sem perder a sua essência, é uma das características que considera mais importantes preservar. Um equilíbrio entre inclusão e identidade que, na sua visão, será cada vez mais relevante. “Portugal, na sua essência, é um país de futuro.”

 É a cultura que nos dá distinção, que nos torna diferentes dos outros.”

É em Lisboa que se sente em casa. “Eu sou sempre feliz em Lisboa.” Foi a cidade que adotou como sua, embora o Porto também ocupe um lugar especial nas suas preferências e o Douro e o Côa tenham uma relação diferente, mais profunda, com a sua história.

As raízes transmontanas continuam, entretanto, presentes. Em Vila Real permanecem os irmãos e parte da família, mas também uma ligação à universidade onde estudou e onde continua a regressar com frequência. A relação com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro ganhou, aliás, uma nova dimensão. Lídia Monteiro é atualmente presidente da Associação dos Antigos Alunos da UTAD, cargo para o qual foi eleita e que assumiu este ano. Tem ideias para aproximar antigos alunos e criar um programa de relação entre a comunidade alumni, mas admite que lhe falta uma coisa para fazer tudo aquilo que gostaria: tempo. “Na verdade, precisava ter mais tempo.”

A atividade junta-se a outras responsabilidades: preside ao Conselho Consultivo da Fundação Côa Parque, por convite, e integra a Comissão de Certificação dos Caminhos de Santiago, por nomeação do Turismo de Portugal.

Tempo é, aliás, um conceito relativo na sua vida profissional. Raramente sai cedo do escritório e o trabalho não termina necessariamente quando fecha a porta. “Normalmente, depois do jantar faço sempre algum trabalho.”

Se há uma coisa capaz de a tirar do sério, não são necessariamente os grandes problemas. São as pequenas coisas que não têm razão de existir. “Futilidades”, aponta. E, sobretudo, aquilo que não tem coerência, sentido ou objetivo. Lídia Monteiro diz gostar de elasticidade e de pensamento lateral, de procurar inspiração fora do turismo para depois a levar para dentro do setor. É também uma ideia que procura transmitir à equipa: olhar para outros universos, encontrar referências inesperadas e transformá-las em novas formas de pensar.

Há, porém, outra questão que a incomoda: ver poucas mulheres presentes nos fóruns do turismo. É uma preocupação que se cruza com uma das ambições profissionais que já tinha identificado na entrevista: contribuir para que mais mulheres do setor tenham visibilidade e reconhecimento.

A cultura continua a ocupar espaço na agenda

Apesar de uma agenda profissional preenchida, a cultura não desapareceu. Pelo contrário, continua a encontrar espaço entre reuniões e viagens. Nos últimos tempos, passou pelo NOS Alive e pelo Kalorama, viu em Barcelona uma exposição de fotografia, foi ao cinema ao ar livre no Jardim da Estrela. A próxima paragem cultural está marcada para o MAAT, para conhecer a exposição de Cabrita Reis.

É talvez quando começa a falar do mais recente projeto promocional, Pairing Portugal, que o entusiasmo de Lídia Monteiro se torna mais evidente. O projeto nasceu de uma ideia que cruza vinho, território e literatura. Mas, antes de chegar ao livro, começou numa rolha de cortiça e numa tecnologia desenvolvida por uma startup em parceria com a Corticeira Amorim.

A solução funciona através de um pequeno chip integrado na rolha, que pode ser lido através de uma aplicação. A ideia é transformar a própria garrafa de vinho num novo canal de comunicação de Portugal. Em qualquer parte do mundo, quem encontrar uma garrafa com esta tecnologia poderá aceder a conteúdos sobre o vinho, o território e a poesia associada, bem como a informação sobre onde ficar e onde comer.

O projeto tinha sido lançado na FITUR, em Madrid, através de uma exposição. Agora, ganhou uma dimensão física através da Antologia Poética de Portugal: 100 poetas contemporâneos, 100 poemas, 100 vinhos e 100 territórios.

A lógica é simples, mas a ambição é maior: associar cada poeta a um lugar e a um vinho e deixar que a poesia ajude a revelar esse território. “Um poeta, um lugar, um vinho e a poesia que inspira.”

O Pairing Portugal é também uma boa síntese da forma como Lídia Monteiro encara o próprio trabalho. O seu papel, explica, passa por definir estrategicamente aquilo que deve ser feito, construir o briefing e desafiar as agências a encontrar a melhor forma de concretizar essa visão. E faz questão de manter uma relação próxima com quem está do outro lado. “Não gosto muito de barreiras.”

Por isso, apesar da existência de uma account, trabalha diretamente com as equipas criativas e com o diretor criativo. É com eles que discute ideias, afina briefings e “bate bolas”.

No fundo, é o processo criativo que mais a entusiasma. “O que eu mais gosto no meu trabalho é conceber, idealizar, criar e pensar sempre que aquilo vai ter um impacto.” No entanto, há uma condição: a criatividade tem de servir um propósito. “Não é criar por criar. A ideia de criar por criar a mim mete-me mesmo urticária.”

Para Lídia Monteiro, uma ideia só ganha verdadeiro sentido quando pretende produzir um efeito, transformar alguma coisa e quando os resultados podem ser vistos.

Há uma última pergunta que parece quase uma conclusão: é evidente que gosta do que faz? A resposta surge sem hesitação. “Gosto muito.” Há também uma característica que reconhece em si própria e que talvez ajude a explicar uma carreira construída entre diferentes áreas, funções e desafios: a capacidade de se auto-motivar.

Nem tudo corre sempre bem, admite. O mundo “não é cor-de-rosa” e existem, naturalmente, momentos menos positivos. Mas há uma forma de ultrapassar esses momentos: voltar aos projetos. “Mesmo quando às vezes as coisas não correm bem, o concentrar-me nos projetos dá-me uma alegria.” É uma espécie de mecanismo interno para seguir em frente, deixando para trás aquilo que não correu como esperado e concentrando-se naquilo que ainda pode ser feito.

PERFIL é uma nova rubrica dedicada às personalidades que marcaram e continuam a marcar o turismo em Portugal. Mais do que entrevistas, estes perfis procuram dar a conhecer o percurso, a personalidade, as rotinas e a visão dos líderes que ajudam a construir o setor.

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