Reportagem Jamaica (Parte 2) | Entre cascatas, rum e antigas plantações, descobrimos outras faces da ilha

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Depois de Negril, a viagem à Jamaica, realizada a convite do operador turístico World2Meet e do Jamaica Tourist Board, levou-nos para longe dos grandes resorts e das praias que normalmente definem a imagem do destino. Seguimos para norte, por uma paisagem cada vez mais verde e montanhosa, onde antigas plantações, propriedades históricas, rios e cascatas revelam uma Jamaica marcada pela história e pela natureza.

Se nos primeiros dias da viagem tínhamos percebido que o país dificilmente cabe na imagem construída em torno do reggae, de Bob Marley e do mar das Caraíbas, os que se seguiram vieram reforçar essa ideia. Entre Falmouth e Ocho Rios, entrámos em antigas propriedades agrícolas, conhecemos alguns dos lugares onde permanece visível o passado colonial da ilha e percebemos como produtos tão associados à identidade jamaicana como o jerk e o rum estão profundamente ligados à sua história.

É também nesta região que se concentra uma parte importante da oferta de experiências do destino. Paula Powell, business development officer do Jamaica Tourist Board, que nos acompanhou durante a semana, descreve Ocho Rios como o “centerpiece of Jamaica“. Não apenas pela paisagem, marcada pelos rios, cascatas e vegetação tropical, mas pela proximidade entre os hotéis e as principais atrações. “O que distingue Ocho Rios é ter muitas atrações muito perto dos hotéis. Não é preciso ir muito longe para as conhecer”, explica.

Do jerk ao passado colonial da Jamaica

Antes de chegarmos a Ocho Rios, porém, havia uma paragem obrigatória. Se há uma especialidade que atravessa praticamente toda a viagem pela Jamaica, é o jerk. Nos dias anteriores, Paula tinha-nos explicado como esta técnica de confeção está ligada às comunidades Maroon e ao período da escravatura.

Quando os escravos fugiam das plantações e se refugiavam nas montanhas, precisavam de encontrar uma forma de cozinhar carne sem que o fumo denunciasse a sua localização. A solução passava por utilizar madeira de pimento e cozinhar lentamente a carne em buracos escavados no solo e cobertos com terra. Hoje, o processo tornou-se mais comercial, mas a madeira continua a desempenhar um papel importante na preparação tradicional. “Agora já não é feito debaixo da terra”, explicou-nos Paula. “Pode encontrar-se jerk em tambores de metal por todo o lado, mas ainda há lugares onde fazem o jerk autêntico, com a madeira de pimento.”

Um deles, garantiu-nos, era o Scotchies. À chegada, percebemos rapidamente que não estávamos perante um restaurante sofisticado ou pensado para impressionar pelo espaço. Junto à estrada, com uma estrutura aberta e ambiente informal, é sobretudo o fumo que anunciam aquilo que ali se vem provar.

A carne é cozinhada lentamente sobre a madeira de pimento, adquirindo um sabor fumado ao qual se juntam as especiarias da marinada e o picante característico do jerk. O resultado chega-nos sem grandes cerimónias: carne tenra, condimentada e com um sabor bastante diferente das versões de jerk chicken que encontramos habitualmente fora da Jamaica, acompanhado por duas opções de molho picante.

Rose Hall e as marcas do passado colonial jamaicano

Erguida numa colina com vista para o mar, a Rose Hall Great House é uma das casas senhoriais mais conhecidas da Jamaica. Construída no século XVIII, durante o período em que as plantações de açúcar dominavam a economia da ilha, a propriedade tornou-se célebre sobretudo pela história de Annie Palmer, a chamada White Witch of Rose Hall.

A lenda conta que Annie terá assassinado vários maridos e governado a propriedade com violência, recorrendo inclusivamente a práticas de magia negra. É uma história repetida há décadas e que se tornou indissociável da imagem da Rose Hall, embora a sua veracidade histórica seja contestada.

Durante a visita, atravessamos salas restauradas, mobiliário de época e espaços que procuram recriar o quotidiano das famílias abastadas que ocuparam estas propriedades. A narrativa da White Witch acompanha grande parte do percurso, mas é difícil visitar uma antiga plantação jamaicana sem olhar para aquilo que existia para lá da casa senhorial.

Durante o domínio britânico, o açúcar transformou a Jamaica numa das colónias economicamente mais relevantes das Caraíbas, num sistema sustentado pelo trabalho de africanos escravizados. A abolição da escravatura no Império Britânico só chegaria no século XIX e esse passado continua presente em muitas das propriedades históricas que hoje integram os circuitos turísticos da ilha.

A Rose Hall acaba, assim, por funcionar em dois planos. Há a casa que os visitantes procuram pela lenda de Annie Palmer e pelas histórias de fantasmas, e há a antiga propriedade colonial, que ajuda a perceber uma parte bastante menos romântica da história jamaicana.

De Falmouth a Ocho Rios, onde a natureza ganha terreno

Depois da visita, seguimos para Falmouth, onde passámos as duas noites seguintes no RIU Palace Aquarelle. Inaugurado em maio de 2024, é atualmente o hotel mais recente da RIU na Jamaica e o primeiro da cadeia em Falmouth. A unidade de cinco estrelas dispõe de 753 quartos, funciona em regime de tudo incluído 24 horas e inclui 180 quartos triplos e 26 suites familiares, numa configuração que deixa clara a aposta nos grupos e nas famílias.

O Aquarelle é grande, moderno e movimentado e, durante a nossa estadia, a animação fazia-se sentir praticamente ao longo de todo o dia, sobretudo em redor das piscinas, onde a música acompanha boa parte da programação. Para quem procura férias com ambiente, atividades e entretenimento, a fórmula funciona. Quem privilegia sobretudo silêncio e descanso encontrará opções mais tranquilas na ilha.

Também aqui a restauração tem um peso significativo na oferta. Numa das noites experimentámos o restaurante asiático, um dos vários espaços temáticos com serviço à la carte, onde encontrámos uma carta extensa e uma qualidade que voltou a contrariar alguma da ideia pré-concebida de que os grandes resorts all inclusive vivem essencialmente de buffets.

O hotel serviria, sobretudo, como ponto de partida para o dia seguinte. Saímos cedo em direção a Ocho Rios, uma das seis regiões turísticas identificadas pelo Jamaica Tourist Board e, juntamente com Montego Bay e Negril, uma das três onde a oferta turística está mais concentrada.

A paisagem muda à medida que avançamos. A costa permanece próxima, mas o verde torna-se progressivamente dominante. Paula já nos tinha avisado que esta era uma das características desta zona: rios, cascatas e uma concentração de experiências de natureza que permite sair do hotel e encontrar várias atrações sem percorrer grandes distâncias. A primeira desse dia seria uma antiga propriedade agrícola.

No Yaaman, Donovan é a verdadeira atração

Paula Powell

O Yaaman Adventure Park ocupa a antiga Prospect Plantation, uma propriedade do século XVIII nos arredores de Ocho Rios que hoje combina a história agrícola do espaço com atividades de natureza, gastronomia e aventura. A oferta atual inclui experiências tão diferentes como passeios em veículos todo-o-terreno, contacto com animais e visitas à antiga propriedade, mas o nosso programa seria bastante mais tranquilo: aves, um jitney tour e uma aula de cozinha jamaicana.

Começámos num aviário, uma grande área delimitada por uma rede onde vivem araras e outras aves tropicais. Basta colocarmos um pouco de comida na palma da mão para, poucos segundos depois, começarem a pousar-nos nos braços, nos ombros e, para os menos afortunados, na cabeça.

Mas a parte mais memorável da visita chegaria logo a seguir. Subimos para um jitney, uma espécie de reboque aberto puxado por um trator, e conhecemos Donovan. Paula já nos tinha explicado no caminho aquilo que nos esperava: “Entramos num jitney, que é como um pequeno atrelado puxado por um trator, e subimos até ao topo da colina, fazendo algumas paragens pelo caminho.” O que não nos tinha dito era que o guia se tornaria rapidamente na verdadeira estrela da propriedade.

Donovan trabalha ali desde a década de 1980 e conhece aparentemente cada árvore, folha e recanto do terreno. O veículo avança alguns metros e volta a parar. Donovan salta, apanha uma folha, parte um fruto ou aponta para uma árvore e explica-nos o que estamos a ver. Mostra-nos diferentes plantas e o pimento, que nada tem que ver com aquilo a que chamamos pimento em Portugal: trata-se da árvore cujas bagas dão origem à allspice, uma especiaria fundamental na cozinha jamaicana e precisamente uma das bases do jerk.

As explicações sobre botânica e agricultura são, contudo, apenas metade do passeio. A outra metade é Donovan. Entre cada paragem surgem piadas, provocações dirigidas aos passageiros e comentários de um humor particularmente aguçado, que fazem com que passemos grande parte do percurso a rir.

Pelo caminho, conta-nos também a história da propriedade. A Prospect Plantation funcionou durante o período colonial como propriedade agrícola e esteve ligada ao sistema esclavagista que marcou a economia jamaicana. Hoje tem outros proprietários e uma função completamente diferente, mas a dimensão dos terrenos e a antiga casa senhorial continuam a recordar esse passado.

É precisamente junto dessa casa que terminamos o percurso. Sob uma pequena estrutura aberta, com a propriedade atrás de nós e o azul do mar das Caraíbas a ocupar o horizonte, trocamos o jitney pelos aventais. À nossa espera está um cozinheiro e, sobre a bancada, os ingredientes para prepararmos o almoço.

O prato principal não podia ser outro: jerk chicken. Começamos por temperar o frango com a mistura de especiarias e condimentos que lhe dá o sabor característico e preparamos depois os acompanhamentos. Um deles é o festival, uma massa ligeiramente adocicada, normalmente feita à base de farinha e milho, moldada em pequenos pedaços e frita até ficar dourada por fora e macia no interior. Juntamos ainda legumes salteados antes de levarmos tudo ao lume.

Depois de vários dias a ouvir falar sobre jerk, a experiência fecha de certa forma o círculo: primeiro conhecemos a história, depois provámo-lo preparado de forma tradicional e agora somos nós a tentar fazê-lo.

Quando terminamos, sentamo-nos à mesa para comer aquilo que acabámos de cozinhar. O dia, contudo, estava longe de terminar. A poucos quilómetros dali esperava-nos uma experiência bastante mais física: subir uma cascata, desde praticamente o mar até ao topo.

Localizadas junto a Ocho Rios, as Dunn’s River Falls estendem-se por cerca de 180 metros, formando uma sucessão de terraços naturais e pequenas piscinas antes de o rio desaguar diretamente no mar das Caraíbas. A formação continua, aliás, a transformar-se: a água deposita carbonato de cálcio sobre a rocha, regenerando continuamente o travertino que dá forma à cascata.

Nós escolhemos subi-la. Calçamos os sapatos aquáticos, entramos na água e, seguindo as indicações do guia, formamos uma corrente humana. A lógica é simples: damos as mãos e avançamos em conjunto, procurando apoio entre as pedras enquanto a água nos bate nas pernas e, nalguns pontos, praticamente no corpo inteiro. Na prática, exige algum equilíbrio e atenção, sobretudo nos troços em que a corrente ganha força ou é preciso procurar o próximo ponto onde colocar os pés.

A subida é feita por etapas. Pelo caminho, paramos em algumas das piscinas naturais formadas entre os diferentes níveis da cascata, recuperamos o fôlego e voltamos a avançar. Há momentos em que conseguimos subir praticamente de pé e outros em que recorremos às mãos para ganhar apoio nas rochas molhadas.

Não é, contudo, obrigatório fazer o percurso completo. Quem não quiser enfrentar a subida pode permanecer nas várias piscinas naturais, utilizar os acessos laterais ou ficar junto à praia, na base da cascata. É precisamente essa proximidade ao mar que torna as Dunn’s River Falls pouco comuns: o rio termina praticamente na praia, depois de atravessar uma sucessão de quedas de água rodeadas por vegetação.

A experiência ajuda também a perceber aquilo que Paula Powell nos tinha dito sobre Ocho Rios. Aqui, a natureza não funciona apenas como cenário dos hotéis: é parte central da própria oferta turística.

Depois de um dia passado entre o Yaaman e as Dunn’s River Falls, regressámos ao RIU Palace Aquarelle. Nessa noite experimentámos a steakhouse, outro dos restaurantes temáticos do hotel, antes de, na manhã seguinte, voltarmos à estrada. Desta vez, o destino ficava em Trelawny e a matéria-prima que nos levava até lá era outra das grandes referências da Jamaica: o rum.

Na Hampden, o rum ainda se faz devagar

A entrada na Hampden Estate quase parece transportar-nos para outra época. A propriedade está ligada à produção de açúcar desde o século XVIII e começou a destilar rum em 1753. Quase três séculos depois, continua a utilizar métodos tradicionais que ajudam a explicar o perfil particularmente aromático dos seus runs.

Durante a visita percorremos praticamente todo o processo de produção. E aqui percebe-se que a fama da Hampden não depende apenas da antiguidade da propriedade. A destilaria trabalha exclusivamente com pot stills de cobre de dupla retorta e utiliza fermentações longas com leveduras naturalmente presentes no ambiente, em vez de procurar acelerar o processo através de métodos industriais. Segundo a própria Hampden, a fermentação pode prolongar-se entre oito e 15 dias.

É daqui que saem runs conhecidos pelo elevado teor de ésteres, os compostos que ajudam a criar os aromas intensos e, por vezes, quase inesperados que distinguem o estilo jamaicano. Ao aproximarmo-nos das cubas de fermentação, o cheiro já antecipa aquilo que encontraremos mais tarde no copo: notas muito maduras e frutadas, que podem lembrar banana ou ananás e que contrastam com a imagem mais doce que muitas vezes associamos ao rum.

A Hampden passou grande parte da sua história a produzir sobretudo para terceiros. Durante décadas, o rum saía da propriedade destinado a mercados internacionais e a outras empresas, e só em 2018 surgiram os primeiros engarrafamentos oficiais comercializados sob a marca Hampden Estate. Ainda hoje, a produção a granel representa uma parte importante da atividade, segundo nos explicam durante a visita.

Terminamos onde seria difícil terminar de outra forma: à mesa, com uma degustação. Depois de vermos as cubas, os alambiques e os barris, conseguimos finalmente comparar diferentes expressões da casa e perceber como o tempo de envelhecimento, a graduação e os diferentes perfis de produção alteram aquilo que encontramos no copo.

As últimas noites, em Rose Hall

Da destilaria seguimos para o Iberostar Selection Rose Hall Suites, onde passaríamos as duas últimas noites da viagem. Localizado junto à praia, nos arredores de Montego Bay, o hotel integra um complexo com três unidades Iberostar e dispõe de 317 junior suites, quatro restaurantes de especialidade, buffet, piscinas e uma área aquática destinada às famílias.

Depois do ambiente mais intenso que tínhamos encontrado no RIU Palace Aquarelle, a mudança fez-se notar. O Iberostar tem uma decoração mais tradicional e, durante a nossa estadia, encontrámos um ambiente mais tranquilo, embora continue a funcionar segundo a lógica de um grande resort all inclusive. São duas propostas diferentes: o RIU aposta mais visivelmente na animação e na música ao longo do dia; aqui, o ritmo pareceu-nos mais pausado.

Na primeira noite jantámos no restaurante italiano, acompanhados por Odette Dyer, regional director Jamaica do Jamaica Tourist Board. À mesa, colocámos-lhe uma pergunta que tínhamos feito de diferentes formas ao longo da semana: numa região onde vários destinos oferecem praias tropicais, resorts e clima quente, o que distingue afinal a Jamaica dos restantes países das Caraíbas?

A resposta chegou quase sem hesitação: “É a vibe.” Odette falou-nos de uma energia que, nas suas palavras, “you can’t pack”, algo que não se consegue colocar numa mala ou reproduzir noutro destino, e apontou também a história e as pessoas como elementos diferenciadores da ilha. A resposta acabava por coincidir com muito daquilo que Paula nos tinha repetido durante a viagem: para o Jamaica Tourist Board, a estratégia passa por convencer quem chega a não permanecer exclusivamente dentro dos resorts.

Paula tinha-o resumido de forma particularmente direta na nossa entrevista: “Temos resorts lindíssimos, mas queremos que as pessoas saiam e conheçam a verdadeira Jamaica.” Para a responsável, é fora das unidades hoteleiras que o visitante encontra “a cultura, as pessoas e as experiências” que distinguem o país de outros destinos das Caraíbas. No nosso último dia completo na ilha, voltámos a fazê-lo.

Pelo Martha Brae, quase em silêncio

O Chukka Eco-Adventure Outpost at Good Hope ocupa uma antiga propriedade na região de Trelawny, atravessada pelo rio Martha Brae. Atualmente funciona como um grande espaço de atividades ao ar livre, onde é possível fazer zipline, river tubing, percursos de e-bike, conduzir dune buggies ou simplesmente passar algumas horas junto ao rio.

Nós escolhemos uma das experiências mais tranquilas. À nossa espera está uma jangada comprida construída em bambu e Marco Miller, que seria o nosso “capitão” durante o percurso. Sentamo-nos e Marco coloca-se de pé na extremidade da embarcação, munido apenas de uma longa vara.

O sistema parece rudimentar, mas funciona com uma precisão surpreendente. Marco finca a vara no fundo do rio e utiliza o próprio corpo para impulsionar a jangada para a frente, repetindo o movimento enquanto avançamos lentamente pelo Martha Brae.

Não há motor. Não há música. Durante grande parte do percurso, praticamente só ouvimos a água, os pássaros e o som da vara a tocar no fundo do rio. Depois de vários dias de excursões, estradas e hotéis movimentados, o contraste é imediato.

Percorremos cerca de um quarto de milha, sempre rodeados por vegetação. O rio é estreito em alguns pontos e as árvores aproximam-se das margens, criando zonas onde quase fecham a paisagem sobre a água.

A meio do percurso chega uma particularidade que não esperávamos. Ainda sentados na jangada, recebemos uma massagem nos pés e nas pernas com uma pasta de calcário, seguida de óleo para hidratar a pele. A experiência tornou-se uma das imagens mais associadas ao bamboo rafting turístico na Jamaica e está atualmente integrada na própria oferta da Chukka em Good Hope.

O passeio dura pouco quando comparado com outras atividades da semana, mas é precisamente o ritmo que o torna diferente. Depois das moto4, das tirolesas e de subirmos uma cascata contra a corrente, desta vez não há propriamente nada para fazer além de nos sentarmos e observar a paisagem passar devagar.

À mesa, longe dos resorts

Depois do silêncio do Martha Brae, seguimos para a costa. O almoço desse dia seria bastante diferente daqueles que tínhamos feito nos hotéis: parámos no Chill Out Hut Beach Bar & Grill, um restaurante informal junto ao mar, com mesas praticamente sobre a água e uma carta onde o peixe ocupa naturalmente um lugar de destaque.

Foi ali que experimentámos snapper (pargo), um dos peixes que mais frequentemente encontrámos nas ementas jamaicanas. Optámos pelo brown stew, um guisado com num molho escuro e aromático, preparado com ingredientes que podem incluir tomate, cebola, pimento, ervas e especiarias.

A acompanhar veio fried bammy, outro elemento muito presente na cozinha jamaicana. Feito a partir de mandioca, o bammy tem origem na alimentação dos Taíno, população indígena que habitava a Jamaica antes da chegada dos europeus, e continua hoje a ser servido sobretudo como acompanhamento de peixe. Para beber, a Red Stripe continua a ser a escolha mais óbvia para quem aprecia cerveja, embora a oferta vá naturalmente muito além daquela que se tornou uma das marcas jamaicanas mais reconhecidas internacionalmente.

Ao longo da semana, estas refeições fora dos hotéis também nos permitiram perceber outra característica do destino: a Jamaica não é particularmente barata. Para um visitante português, comer fora, consumir bebidas em zonas turísticas ou participar em excursões pode representar uma parcela significativa do orçamento da viagem, sobretudo porque muitos dos preços destinados aos visitantes são apresentados em dólares norte-americanos.

É também por isso que a predominância do all inclusive nos grandes resorts se compreende facilmente. Mas permanecer exclusivamente dentro do hotel significa deixar de fora uma parte importante da experiência jamaicana, uma ideia que Paula Powell repetiu várias vezes durante a semana.

Na nossa última noite, sair do hotel levar-nos-ia a conhecer um fenómeno natural que só se revela depois de escurecer.

Uma lagoa que só revela o segredo à noite

Quando chegamos à Luminous Lagoon, junto a Falmouth, já pouco se distingue para lá das luzes da margem. Embarcamos com a Falmouth Mystic Lagoon Tours e avançamos pela lagoa praticamente às escuras. Nos primeiros minutos, aparentemente, não acontece nada.

Depois o barco ganha velocidade e a água começa a responder à sua passagem. Atrás de nós surge um rasto luminoso, primeiro discreto e depois cada vez mais evidente. Pequenos pontos azulados acendem-se com o movimento da embarcação e desaparecem quase imediatamente.

O fenómeno deve-se à presença de microrganismos bioluminescentes, dinoflagelados que emitem luz quando a água é perturbada. A combinação entre as águas quentes e pouco profundas da lagoa e a mistura de água salgada com água doce cria condições favoráveis à sua concentração, fazendo deste um dos locais da Jamaica onde o fenómeno pode ser observado.

Mas vê-lo a partir do barco é apenas a primeira parte da experiência. A embarcação acaba por parar no meio da lagoa e somos convidados a entrar na água. Descemos e, durante alguns segundos, voltamos a ficar rodeados apenas pela escuridão. Basta começar a mexer os braços e as pernas para tudo mudar.

Cada movimento ilumina a água à nossa volta num azul intenso. Quando paramos, desaparece; quando voltamos a mexer-nos, reaparece. É um fenómeno difícil de reproduzir em fotografia – sobretudo com um telemóvel – e que resulta muito mais impressionante ao vivo. Depois de uma semana em que tínhamos atravessado a vegetação de moto4, subido cascatas, navegado por rios e conhecido diferentes zonas da costa, a última excursão acabava por mostrar outra dimensão da natureza jamaicana.

Quantos dias são necessários para conhecer a Jamaica?

Na manhã seguinte ainda houve tempo para uma última saída antes de regressarmos a Portugal. Visitámos um mercado local, conversámos com alguns vendedores e aproveitámos para fazer as últimas compras. Depois de uma semana marcada por deslocações quase diárias, a manhã teve um ritmo bastante diferente.

E serviu também para confirmar uma das conclusões que fomos retirando ao longo da viagem: sete noites chegam para conhecer uma parte da Jamaica, mas dificilmente chegam para conhecer a ilha.

Paula Powell defende precisamente que uma estadia mais longa permite compreender melhor a diversidade entre regiões. Na entrevista ao TNews, apontou dez noites como uma duração particularmente interessante para uma primeira visita, permitindo repartir a estadia entre diferentes zonas do país em vez de permanecer sempre no mesmo resort.

É também uma das razões pelas quais gostaria de ver crescer a operação a partir de Portugal. Com duas frequências semanais, explicou-nos, seria possível criar estadias de dez ou onze noites e dar aos viajantes maior flexibilidade para combinar diferentes regiões da ilha.

A lógica torna-se clara depois de percorrermos o destino. Negril não oferece exatamente a mesma experiência que Ocho Rios; Falmouth tem uma identidade diferente de Montego Bay; e a Jamaica que encontramos no interior das antigas propriedades agrícolas ou junto aos rios é bastante diferente daquela que vemos nos grandes resorts da costa.

E qual é a melhor altura para viajar?

Para o mercado português, a operação direta da World2Meet concentra-se no verão, entre junho e o início de outubro, mas isso não significa que seja necessariamente essa a única altura indicada para visitar a Jamaica.

Questionada pelo TNews sobre o melhor período do ano, Paula começou precisamente por recordar uma das características do clima jamaicano: “Somos um destino para todo o ano.” As temperaturas mantêm-se elevadas ao longo dos 12 meses, embora existam diferenças na precipitação e no risco de tempestades tropicais.

A época oficial de furacões no Atlântico decorre entre junho e novembro, coincidindo parcialmente com a operação portuguesa, mas isso não significa que uma viagem nesse período implique necessariamente mau tempo. Paula chamou-nos a atenção, em particular, para setembro, um mês em que a ilha recebe menos visitantes e em que, segundo a responsável, é possível encontrar maior disponibilidade e preços mais competitivos.

Ao longo de sete dias percorremos sobretudo a costa norte e oeste. Dormimos em três resorts com perfis bastante diferentes, saímos para conhecer praias públicas e comunidades, atravessámos antigas propriedades coloniais, aprendemos a cozinhar jerk, vimos como se produz rum, subimos uma cascata, percorremos rios e encontrámos uma oferta turística muito mais dependente da natureza do que a imagem de sol e praia inicialmente poderia fazer supor.

Mas houve uma ideia que atravessou praticamente toda a viagem e que tanto Paula Powell como Odette Dyer repetiram de formas diferentes: a Jamaica procura diferenciar-se não apenas pelo produto turístico, mas pela identidade que existe em redor dele.

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