Texto e Fotos: Luís Correia
O voo da TAP que liga Portugal a Porto Alegre, capital do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, regressa até à primavera de 2025. A garantia é dada por Carlos Antunes, o diretor da companhia aérea portuguesa para as Américas, que salvaguarda, ainda assim, que a pista de Porto Alegre, destruída pelas cheias ocorridas naquele estado há cerca de seis meses, terá de dar garantias de estar preparada para receber os três voos semanais da TAP.
Em entrevista exclusiva ao TNews, durante o evento da ABAV (Associação Brasileira dos Agentes de Viagem), que este ano teve lugar em Brasília, Carlos Antunes lembra que a catástrofe no Rio Grande do Sul colocou os objetivos da companhia portuguesa em risco, porque, explica, “tivemos de interromper o voo de Porto Alegre logo de imediato e eram três voos por semana. Deixou-nos aeronaves, tripulações e slots à disposição — e isso são os nossos recursos mais escassos — e tivemos de os colocar em algum lugar.”
Quem “ganhou” com este percalço foi o estado vizinho de Santa Catarina. “Dos males, o menor; nós já estávamos a trabalhar para lançar Florianópolis (capital do estado de Santa Catarina), que seria em 2025. Estávamos em negociações com o governo, com o aeroporto, e, quando nós vimos a oportunidade de ter uma aeronave, as tripulações e os slots, nós imediatamente acelerámos o projeto para lançar Florianópolis”, diz.
O voo de Florianópolis tem lançado a dúvida se o voo de Porto Alegre irá voltar ou não. Mas essa é uma não questão para a TAP. “Florianópolis, além de ser um voo que tem uma captação própria, neste momento está a ajudar muito o sul do Brasil. Depois, irá voltar Porto Alegre. Porto Alegre vai voltar e vai conviver com Florianópolis, mas neste momento Florianópolis está com essa dupla vertente”, explica Carlos Antunes.
Para atestar que os dois voos, apesar de próximos, são diferentes, o responsável refere que foram feitos estudos que demonstram que “não existe canibalização. Porto Alegre tem uma área de captação própria; Florianópolis também. O que está a acontecer agora é que o passageiro do Rio Grande do Sul está a submeter-se a fazer 600 quilómetros de autocarro ou de carro para embarcar em Florianópolis, porque é a única solução que ele tem. Quando os dois voos estiverem a funcionar, eles são dois voos que convivem bem um com o outro.”
Para já, Porto Alegre prepara-se para reabrir o aeroporto. “A pista de Porto Alegre vai abrir para voos do tamanho das nossas aeronaves a partir do dia 16 de dezembro. Seria muito precipitado termos o nosso voo no dia 16. Nós temos não só de publicar os voos com antecedência para vender, mas temos de ir lá ver como é que aquilo está e ter a certeza que realmente abre no dia 16. Não que tenhamos dúvida, mas é ver para crer. Vamos fazer a inspeção da pista e depois temos uns três meses, a gente imagina, para vender os voos”, anuncia.
Voos de Florianópolis “além das nossas expectativas”
Lançado no início de setembro, o voo de Florianópolis, com três frequências semanais, tem dado excelentes indicadores. Ainda sem números fechados do primeiro mês de operação, Carlos Antunes analisa que “nas primeiras semanas, os voos à saída daqui (Brasil) estavam completamente cheios. E quando eu digo isto, é 100% de ocupação. Os primeiros, à saída de Portugal, vinham com 80% de ocupação, porque os passageiros têm de sair daqui e voltar. Mesmo assim, para uma rota nova, nós consideramos que a performance, o desempenho, ficam além das nossas expectativas. E já vínhamos a trabalhar neste business case há um ano e meio.”
Barreira dos dois milhões de passageiros é para ser quebrada este ano
O contratempo de Porto Alegre não impede a TAP de manter o objetivo de novo recorde de passageiros nos voos do Brasil. “Continuamos a mirar passar os dois milhões de passageiros ainda este ano. O ano passado, nós fizemos um milhão novecentos e vinte mil e ultrapassámos o milhão e novecentos, que nunca tínhamos ultrapassado”, relembra Carlos Antunes.
O potencial turístico e corporativo da rota de Manaus
A próxima aposta da TAP no Brasil é o voo para Manaus, cujo voo inaugural terá lugar no dia 4 de novembro. Este é um regresso da companhia aérea portuguesa àquele destino, oito anos depois de ter sido interrompido. Com três frequências semanais (segundas, quartas e sextas), “Manaus é uma rota estratégica, porque liga o coração da Amazónia. Nós dizemos que Belém é a porta da Amazónia; Manaus é o coração”, diz o diretor da TAP para as Américas, que prossegue a sua análise. “Se olhar no mapa, Manaus é uma autêntica ilha. Está no meio da selva, tem lá umas rodovias federais que levam dias a serem transpostas, mas é uma ilha que só pode ser alcançada através de avião. Manaus tem uma zona franca, é a sede de muitos projetos e empresas de pesquisa, europeias e americanas.”
Do ponto de vista turístico, Carlos fala em “potencial enorme”, uma vez que é um destino que dá acesso direto “à contemplação da Amazónia, ao coração do planeta. Estamos muito confiantes que vai ser um destino que, quando nós agora o voltarmos a inserir na rota, vai ter uma boa demanda, uma boa procura do lado de lá. Daqui, nós já estamos a contar com o tráfego corporativo, que vai-nos ajudar imenso, por causa da zona franca de Manaus e das grandes indústrias que estão ali colocadas”, projeta.

Air France disputa Salvador da Baía
A companhia Air France junta-se à GOL e à TAP nos voos para Paris a partir de Salvador da Bahia, a partir do dia 28 de novembro. Uma concorrência de peso que, ainda assim, não parece assustar. “Faz parte da equação. Nós temos um diferencial competitivo que mais ninguém tem, que é a posição geográfica de Lisboa, na entrada da Europa. O passageiro, para ir para a Itália, Espanha, França, até mesmo no sul deste país, em Toulouse, Nice, Lyon, Reino Unido também, ele não tem que ir para a frente para depois voltar”, explica Carlos.
Segundo o responsável da TAP, a língua também ajuda a travar a concorrência. “O aeroporto de Lisboa é um aeroporto eficiente; os passageiros brasileiros gostam de um aeroporto onde se fale português, é importante para o brasileiro. Ele chega e vai direto para o seu destino final, sempre em linha reta com uma conexão, que é algo que os nossos concorrentes não conseguem oferecer.”
A concorrência nesta rota implica disputar passageiros, mas Carlos defende que a via Lisboa com stopover é “uma proposta de valor muito digna, bem composta”. E reforça: “Há uma percentagem de passageiros que vai diretamente para Paris e esses nós vamos ter de concorrer com o preço e com o stopover: ‘Olhe, você vai para Paris, mas aproveita e fica até 10 dias em Portugal’. Mas quem vai para Lyon, para Toulouse, para Milão, Roma, Bilbao, Sevilha, Málaga, Madrid, Barcelona… connosco está muito mais bem servido. Não vai para Charles de Gaulle para voltar para trás, duas vezes”, conclui.
O preço dos bilhetes de avião continua em alta, mas Carlos Antunes aponta para um recuo ou pelo menos estabilização. “Já têm baixado. Em 2024, nós já vimos que já houve uma baixa, pelo menos já não continuaram a subir como em 2023 e porquê? Por causa de ser economia de mercado: houve um aumento de capacidade, há mais opções e os preços voltaram para aquilo que é o seu patamar natural”, diz.
Rio Grande do Sul é, para já, uma exceção. “Nós temos uma situação que é interessante observar agora: Porto Alegre. Parou o voo e abriram Caxias do Sul, que aumentou o número de voos e meteram voos em Canoas. Não se conseguem lugares; as tarifas estão altíssimas de São Paulo para o Rio Grande do Sul. Os passageiros estão a ir de autocarro para Florianópolis. Quando voltarmos a ter os voos domésticos em Porto Alegre, os preços voltam àquilo que é mais uma normalidade de uma economia de mercado”, diz.

“O combustível SAF custa mais 30/50 por cento; é absurdo”
Durante o evento da ABAV, teve lugar a I Jornada de Turismo 2030, onde a aviação foi apontada como uma das indústrias mais poluidoras do setor do turismo. Confrontado com este facto, Carlos Antunes diz que isso “é discutível” e explica o motivo: “Não haja dúvidas de que as nossas máquinas consomem combustível e poluem o ambiente, assim como os carros. Se pegarmos num avião de 300 passageiros que faz 10 mil quilómetros entre Portugal e o Brasil, se fosse possível transportar esses passageiros de carro ou autocarro, consumiria muito mais combustível e poluiria muito mais.”
Ainda assim, não usa a sua narrativa como desculpa e alerta que a TAP mantém o seu compromisso com a sustentabilidade. “É uma responsabilidade ambiental que nós todos temos que ter: trocar os nossos aviões mais antigos por aviões mais modernos. Só aí nós temos um impacto de eficiência. Estes 330-900 comparados com os 330 anteriores, sem falar dos 340, representam uma diminuição da emissão de poluentes, diminuição de combustível, entre os 14 e os 15 por cento. Aí já estamos naquilo que a TAP está a conseguir fazer através da sua troca de aeronaves”, diz.
As medidas não se ficam por aqui e estendem-se a outras, como a utilização de combustíveis biológicos, os SAFs (Sustainable Aviation Fuels). “Já realizámos o nosso primeiro voo com SAF há dois anos e meio, totalmente com combustível sustentável. Hoje, a cadeia de distribuição de SAF está comprometida, por quê? Não há combustível suficiente para a demanda, e o preço então é altíssimo”, prossegue.
Carlos Antunes diz que, para se ter uma ideia, “o combustível SAF custa mais 30/50 por cento; é absurdo. Então, quando houver mais produção, quem é que vai absorver esse custo? O cliente, o passageiro, porque são regras impostas pelas autoridades que nós temos de ter uma percentagem de combustível SAF. Nós vamos ao mercado comprar; o preço é o que está lá, e passamos isso para o cliente. Precisa haver mais produção para baixar o preço. Acho que é como qualquer inovação e essa é uma inovação muito bem-vinda, que é mudar a matriz energética de uma indústria gigante como é a da aviação.”
A presença da TAP na ABAV é uma ligação que vem desde sempre, pela importância estratégica que esta representa no mercado brasileiro. “Uma grande parte das nossas vendas é feita pelos agentes de viagens. Com a distribuição como aquela que nós temos em todo o território, o agente de viagens tem uma importância sumária, gigantesca, porque eles é que traduzem o que são as necessidades de viagens dos clientes e depois indicam a companhia aérea ou o hotel, de forma a prestar uma consultoria efetiva daquilo que vai ser a viagem final, ainda para mais num país com estas dimensões tão grandes como o Brasil.”
A parceria que a companhia aérea portuguesa e a associação brasileira mantêm estende-se ainda aos vários estados, com a delegação da ABAV local. “Em todos os estados onde nós temos o nosso voo, nós temos contacto com a ABAV, fazemos eventos em conjunto, damos treinamento sobre os nossos produtos e serviços e também fazemos fam trips com as agências da ABAV”, remata Carlos Antunes.
*Viajou para Brasília a convite da TAP




